Uma Prece de Amor – Parte XIII

Todos ficaram estáticos com aquilo, apesar das outras pessoas se abaixarem quando a arma disparou. Mas eu corri, desesperadamente, até a madrinha. E, em poucos segundos, minha vida inteira passou pela mente. Vi todos os momentos que ela me defendia e tentava me dar o melhor. Me vi criança, sendo criada por alguém que não tem meu sangue, mas que tinha um imenso amor por mim.

— Madrinha! Madrinha, levanta! Levanta, por favor! – eu pegava sua mão e tentava levantá-la. Via o sangue saindo de sua barriga e me desesperava mais ainda.

— Minha… Minha filha! Vai ficar tudo bem! – algumas pessoas também correram para perto. Eu via o pavor no rosto de cada um deles e meu pavor só aumentava mais.

Amaro segurava Zé Leitão. Logo depois do disparo, a arma foi lançada um pouco longe dos dois. Mas Amaro não conseguiu segurá-lo por muito tempo, o soltou e ele saiu correndo em direção ao seu cavalo que estava ao lado de sua casa.

Ele montou no cavalo e saiu com tudo, a fim de se esconder na escuridão que se fazia pela estrada mais à frente. Mas a luz da Lua caía sobre nós e sobre todo aquele lugar, fazendo com que nós nos víssemos bem.

Calango correu e, por um momento, pensei que fosse para fazer algo contra Amaro, mas ele ajuntou o revólver do chão e apontou na direção de Zé, que ainda ia perto. O segundo disparo foi tão angustiante quanto o primeiro. E Zé Leitão caiu do cavalo, e foi rolando pela estrada, parando já sem vida. Calango só precisou de uma única bala para tirar a vida daquele que havia lhe tirado da sua; lhe tirado colo da mãe verdadeira. E tudo aconteceu tão rápido, que a multidão já estava toda em volta de mim e da madrinha.
Quando dei por mim, Amaro estava ao meu lado, olhando para ela e tentando me acalmar.

— Fica comigo, madrinha! – eu dizia desesperada.

— Minha filha… – ela tentava me acalmar, e falava quase sem conseguir. — Escuta… Escuta tudo com atenção. Essa é a hora certa.

— Não, madrinha! Por favor, não!

— Me escuta! – a multidão, não tão grande assim, fazia barulho também. Algumas mulheres da comunidade já choravam por minha madrinha.

— Seu Carlos e dona Ana Lúcia… Eles eram teus pais. – comecei a sentir as lágrimas quentes descendo pelo meu rosto. — Eles compraro… Essa fazenda, e viero pra cá. Eu já morava aqui com… A mãe. Mas minha mãe morreu logo depois deles terem me chamado pra trabalhar lá. E… Eles trouxeram o Zé Leitão junto, porque ele era muito amigo do teu pai. – ela fazia pausas.

Me contou toda a história. Eles tinham a mesma idade, eram novos e meus pais se amavam muito. Mas Zé Leitão tinha inveja da felicidade deles e tinha uma queda por minha mãe. Mas, depois de um tempo, a madrinha descobriu tudo isso, e tentou avisar, mas Zé sequestrou o filho que ela tinha acabado de ter, e disse que se ela falasse alguma coisa era ela que iria morrer. Ela não disse nada, e teve que mentir para todos que tinha perdido o filho. Ela trabalhou por mais dois anos, com medo do que Zé poderia fazer com ela. Mas um dia, quando eu já tinha nascido e tinha apenas oito meses de vida, meus pais saíram, e só chegou a notícia de que eles tinham sido encontrados mortos na estrada lá de cima. Zé Leitão se apossou da fazenda, obrigou a madrinha a trabalhar para ele e trouxe sua família para morar na sede. Junto deles veio o rapaz que Zé levou para sua irmã criar. Era o filho da madrinha. Mas ela não sabia de nada e nem ele. O pai de Zé era um cachaceiro e vivia devendo nos bares por onde passava, mas em Santo Antônio dos Soares, acabou morrendo.

A madrinha fazia muito esforço para contar toda a história, mas disse, olhando para Calango, quando ele se aproximou, que ele poderia esclarecer mais algumas coisas para mim.

— Foi por minha culpa, Ana… que Amaro foi embora.

— O quê? Do que a senhora tá falano, madrinha? – eu disse.

— Ele… Vai te explicar depois. – olhou para Amaro — Eu nunca acreditei nessa coisa de destino, Amaro. – e voltou a olhar para mim — Mas desde que esse rapaz apareceu por aqui, alguma coisa nasceu dentro de ti, menina. Eu vi… E ouvi tuas preces todas as noites. – ela abriu um riso dolorido — eram preces de amor, filha. E mesmo… Depois de tanto tempo, o destino insiste em unir vocês dois. Deus é… Ele é o próprio destino, Ana. O plano dele é que tu e Amaro fiquem junto. O final dele é bem… Melhor. Lembra? – agora havia um silêncio total pela comunidade inteira, mas uma música começou a tocar no rádio que estava em nossa casinha. Era aquela canção que a madrinha tanto gostava, aquele som que nos levava tão longe. E uma última lágrima correu por seu rosto moreno e velho.

— Não! Acorda, madrinha! Acorda! – eu gritava, desesperada. Mas não adiantou nada, ela morreu ali em meus braços com uma bala em sua barriga. Nesse instante, Amaro me segurou pelos braços e disse que ia ficar tudo bem. Mas era demais. Perdê-la era como perder uma parte de mim. Eu não suportaria, não iria conseguir, porque estava perdendo tanta gente. Primeiro perdi meus pais, e agora, ela. E eu chorava muito. Amaro teve que me levar carregada para dentro da sede. Minhas lágrimas iam caindo pelo chão por onde passávamos.

Eu costumava ver a vida como uma eterna brincadeira de criança; suspirava por ela com a mesma intensidade de quando dançava pelo arraial em volta das fogueiras. Mas descobri que ela é mesmo cheia de embaraços e confusões. Aprendi que ninguém tem o mesmo destino ou segue os mesmos rumos. Eu, por exemplo, tive que passar por toda essa peripécia para que pudesse entender que a vida não é uma eterna brincadeira de casinha e que nem sempre ela vai ser uma dança de carimbó ao redor de uma fogueira. Às vezes, ela é uma lágrima de dor; um queimar-se na fogueira ou até mesmo um funeral. E eu descobri que isso tudo se deu por conta de um único sentimento que, quando mal administrado, causa fortes estragos. Este é o amor.

— José, cuidado com ele! Qualquer coisa chama o Calango! – eu dizia, enquanto olhava do portão da fazenda. Zezé também estava lá do meu lado olhando. Eram umas quatro da tarde, e os raios e o ardor do Sol se jogavam contra nós. Em minha cabeça, tinha um pano amarrado, justamente para me proteger da intensidade que era o verão.

— Pode deixar, tia! Nós volta logo! – eles iam correndo para tentar alcançar Calango. Estavam indo enterrar o Caroço, que tinha acabado de morrer de velhice. Carlinhos amava o cachorro e quis ir com os outros para enterrá-lo perto da estrada mais à frente.

— Tchau, mãe! – Carlinhos disse e acenou para mim.

Zezé e eu ficamos olhando até que eles desapareceram no caminho da estrada. Carlinhos ia cabisbaixo, e mais cedo tinha até chorado por causa de Caroço. Ele era muito apegado com o cachorro, e Calango gostava muito de brincar com eles. Era uma alegria só.

— Eles cresce e nós nem olha a hora! – disse Zezé.

— É… Carlinhos já tá até me corrigino. – disse sorrindo.

— É mesmo?

— É! Imagina que hoje ele disse que mulher não fala obrigado, é obrigada. Eu nunca que sabia disso, mana. – e nós duas começamos a sorrir.

De repente, olhando para a estrada, me recordei daquela noite. A triste noite em que perdi minha madrinha e que pensei que nunca mais seria feliz. Mas eu estava enganada. Já se passaram dez anos desde que tudo aquilo aconteceu ali naquele areal. E eu ainda lembro-me de cada detalhe.

Depois que enterramos a madrinha e eu já estava mais calma, Calango quis esclarecer toda a situação. Disse que Zé o obrigava a fazer algumas coisas ruins, e ele não sabia por quê. Com certeza, era porque queria que Calango fosse visto daquela forma, como alguém que só fazia maldade, justamente porque ele era filho da madrinha. E quando penso nela, fico imaginando como ela não deve ter sofrido com tudo isso. Perdeu seu filho e depois foi obrigada a trabalhar com a pessoa que fez todas essas barbaridades.
Ele me disse outras coisas sobre meus pais. E Amaro também me contou tudo o que aconteceu para ele não ter ido me encontrar naquele dia e o porquê de ter ido embora. Foi a madrinha que o procurou e implorou pra que ele fosse com seu pai. Ela o convenceu de que era o melhor a se fazer, era para o meu bem. Mas era tudo coisa do Zé Leitão. Ele que tinha ido conversar com a madrinha para fazer essas coisas. Assim, Amaro decidiu ir. Mas, depois de quatro meses, tentou falar comigo. Como seu pai era bastante conhecido e o marido da finada dona Raimunda trabalhava com Seu Ramiro, de lá Amaro ligou pra ele. Levou o celular até a sede, mas quem falou com ele foi a madrinha. Ela disse que eu estava muito feliz, pois já era noiva de Zé Leitão e que ia ser dona de tudo o que o Zé tinha. Foi por isso que Amaro começou a se relacionar com outra moça.

Ele me contou todos os detalhes sobre sua partida. Conheceu a moça em Portugal, mas ela era brasileira e decidiu vir com ele pra cá. Ainda não estavam noivos, mas Amaro já pensava na possibilidade. E, como Seu Ramiro não gostava de mim, espalhou para os vendedores e compradores de farinha, que o filho estava noivo. Mas naquela noite, um pouco antes de irem à minha procura, a madrinha contou tudo a ele. Falou das minhas preces e de que eu o esperei, fielmente, por todo o tempo em que ele esteve longe.

— Amor? – meus pensamentos voltaram para o presente. Era Amaro, tinha acabado de vir lá de baixo. Foi lá pegar mandioca para a produção de farinha.

— Oi, meu velho! Quer café? Tô ino fazer. Vou pedir pra Zezé ir na venda comprar pão. – vim andando para a sede, e ele veio logo atrás de mim.

— Vou já! – respondeu Zezé.

— Quero! Cadê o Carlos? – Amaro falou.

— Acabou de sair com Calango e José pra enterrar o Caroço. – respondi enquanto subia os degraus da entrada.

Depois que os rapazes chegaram com Calango, nós tomamos café e Amaro, Carlos e eu fomos até o caminho que tinha um vale ao lado. Ficamos observando o pôr do Sol, enquanto Carlos corria ao nosso redor, brincando.

Com os documentos que Calango escondeu de Zé Leitão, pudemos provar que aquela fazenda e tudo o que nela havia pertencia a mim. Amaro, ainda me amava muito, e decidiu terminar o namoro com a moça. Ela ainda tentou fazer com que Amaro e eu não déssemos certo, mas já tínhamos enfrentado muitos obstáculos. E, no fim, o nosso amor venceu. Conseguimos a fazenda, nos casamos e, alguns meses depois, tivemos um filho, no qual colocamos o nome de Carlos Emanuel da Rosa Lopes, em homenagem ao meu pai.

Calango ficou morando conosco, e eu convidei Zezé para vir também. Com isso os dois começaram a se relacionar e logo depois se casaram também.

Ficamos observando atentamente aquele Sol se afundando no horizonte, e depois eu olhei para o céu e fiz mais uma prece, agradecendo a Deus por tudo o que Ele tinha me dado e por nunca ter me desamparado. E agradeci por me trazer Amaro e Carlos. Olhei para Amaro, e com lágrimas nos olhos, falei:

— A força desse amor nos invadiu antes, e agora eu tenho certeza que amo tu.

Nós nos beijamos. O Sol se pôs completamente, se escondendo em meio às matas, e a cantata de Bach chegou ao fim com uma grande chuva de aplausos.

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