Uma Prece de Amor – Parte XII

Era Zé Leitão que tinha chegado lá. Ele deixou Calango com Zezé e, não me vendo por lá, subiu para fechar a maldita gaveta, e acabou me vendo.
— De que são esses documentos, Zé? – perguntei. Ele me olhava bravo, mas também aparentava uma expressão assustada.
— Me dá isso, Ana! – entrou, rapidamente, no quarto e foi puxando os documentos da minha mão. Depois me empurrou, eu segurei na gaveta e ela caiu no chão com todos os papéis e, entre nós dois, caiu um revólver.
Ele me olhou mais assustado que antes, e eu mais assustada ainda.
— Esses são os meus pais? – perguntei a ele já chorando e temendo o que iria acontecer a partir daquele momento.
— Que merda, Ana! Para de doidice e sai daqui! – ele gritou. Depois ajuntou a arma do chão e conferiu se tinha bala. Fiquei ali paralisada.
— Corre, Ana! – Zezé apareceu bem atrás de mim.
— Pega ela, Calango! – ele gritou, mas ela correu para fora da casa. E quando eu pensei em correr, Zé Leitão segurou meu braço e disse: — Não corre! Por favor, Ana! Não corre. – o revólver estava apontado para mim.
— Para com isso, Zé. Para com isso, pelo amor de Deus! – eu gritava e chorava.
— Calma! – ele me puxou para mais perto. — Vamos viver junto, menina. Casa comigo e nós vai ser dono de tudo isso. Prometo que vou te dar tudo o que tu nunca teve na vida.
— Tu tá é doido, Zé! Como que tu vai me dar alguma coisa se tu não tem nada?! Tava escrito naquele papel. Aquele homem que era o dono. E ele era o meu pai… – assim que terminei, ele me deu uma coronhada na cabeça e eu apaguei.
Quando acordei já era noite. Estava no mesmo quarto, o dele. Passeei o olhar por todo o lugar, e quando olhei pro lado, a vi ali deitada também. Um horror tão grande tomou conta de mim, que fez eu me desesperar. Lembrei de Carlinha, de como a encontramos jogada na beira do rio e como seu sangue estava sendo bebido pela terra. Comecei a chorar e gritar.
Era Zezé. A princípio pensei que ela estivesse morta, mas me levantei com rapidez, apesar de ainda estar zonza, e percebi que ela ainda respirava.
— Ze… – eu olhei em volta, e estava um pouco escuro. Só não estava mais porque a luz de uma lamparina estava lá fora e era noite de Lua cheia. Só dava para ouvir o arraial, pois o quarto ficava na parte de trás da sede. A janela estava tapada com algumas tábuas. — Zezé! – Falei. — Zezé, fala comigo! – peguei sua cabeça e coloquei sobre minhas pernas. Então ela foi acordando.
— Ana! O que aconteceu? – ela disse.
— Eu não sei. Quando acordei a gente tava aqui. – corri em direção a janela. Olhei pelas brechas e gritei, mas era impossível alguém nos ouvir. Minha cabeça ainda doía, e eu fui lembrando de tudo. Falei pra Zezé tudo o que descobri naquele quarto. Olhei para a gaveta e ela ainda estava aberta, mas vazia. De repente, ouvimos um som de vozes vindo de dentro da casa. Chegamos mais perto da porta. Eram as vozes de Calango e Zé Leitão, eles pareciam discutir por alguma coisa. Então a porta se abriu e nós corremos para longe dela, assustadas.
— Se acalmem! – disse Leitão, levantando as mãos até a altura do peito.
— Eu vou te matar, seu desgraçado! – falei e corri em cima dele. Ele me empurrou sobre a cama. E foi nesse momento que Zezé correu também, mas ele colocou a perna no meio pra ela cair, e conseguiu. Eu corri novamente, mas ele me agarrou e deixou Zezé ir embora.
— O que tu vai fazer comigo? O quê… me solta! – comecei a espernear. Ele me agarrou pelo meio e foi me levando para fora da casa pelas portas do fundo. Demos a volta por trás e saímos longe do arraial, ninguém nos veria. Mas quando estávamos indo para perto da estrada por entre a cerca dele e a do Seu Ramiro, vimos alguém. Era o Calango que estava ali.
— Não posso mais fazer isso, tio! – ele disse.
— Para de lacuera, Calango. Me ajuda aqui. – respondeu o Zé. Eu não conseguia gritar porque ele tapava a minha boca com uma das mãos.
— Num sou doido assim, tio. Larga ela logo, senão o bicho vai pegar pro nosso lado.
— Sai da frente, seu merda! – ele levantou o revólver contra Calango, que andou um pouco pra trás. — Eu sabia que tu ia dar pra trás. Não é do meu sangue, nunca foi. Devia ter te matado quando tive a oportunidade.
— Do que tu tá falano, tio?
— Para de me chamar assim, porra! Eu sempre pedi que tu fizesses as coisa e tu fazia. Lembra da casa da Ana? Que tu botou fogo? A Irene quase morreu. É… quase tu matava a tua mãe. – Nesse momento, eu tirei a mão de Zé da minha boca e disse:
— O que que tem a minha madrinha? Vocês que queimaram a… – ele tapou minha boca novamente.
— O que é isso, tio? O que tá dizeno, homem?
— Arah! Sai da minha frente! – de repente, vi muita gente correndo para a fazenda de Zé Leitão. Com certeza Zezé tinha avisado e, agora, todos já sabiam. Zé começou a me puxar novamente, mas foi nesse momento que ouvi a voz dele.
— Ana! Ana, onde tu tá? Grita, Ana! ANA! – estava desesperado, e junto da voz dele havia outras que também me chamavam, desesperadamente. Então Calango correu e Zé Leitão apertou o gatilho. O barulho denunciou nossa posição. Ele não o acertou. Mas, quando nos viramos, vimos a madrinha vindo quase correndo, da maneira que dava conta.
— Ana, minha filha! Solta a minha menina! – ela dizia. E logo atrás dela vinha a multidão. Aquela parte era bem mais escura. Por isso não deu para nos verem quando passaram para a fazenda. Eu chorava muito.
— Tá aí, Calango. Vai aonde tua mamãe! – ele colocou a arma contra mim.
— Esse é teu filho que eu disse que matei, Irene. Levei pra minha irmã criar. E depois voltou pra cá como filho dela. É frouxo como tu, nunca fez nada direito. E sabe de uma coisa? Ele que botou fogo naquela casa velha que me deram.
A madrinha estava parada no meio da estrada. Os outros ficaram mais retraídos, pois estavam com medo. E eu não entendia mais nada do que ele estava falando. De repente, os segredos que rondavam o sítio começaram a ser jogados no ar.
— Zé Leitão, seu desgraçado. Tu desgraçou minha vida, desgraçou a vida dos pais de Ana e agora vai desgraçar a dela. – a madrinha chorava muito. — Eu não acredito nisso, meu Deus! – dizia ela.
Meus olhos, atordoados, buscavam por Amaro que gritava tanto antes e agora havia desaparecido. Eu via a minha madrinha chorando ali naquela estrada, e a Lua se encarregava de iluminar tudo. Os outros, mais atrás, estavam aterrorizados com tudo aquilo.
Calango começou a dizer várias coisas, lá detrás de uma parede, para onde correu após o tiro. Disse que era tudo verdade sobre os meus pais. Que o Zé tinha pedido para queimar tudo o que eu tinha achado na gaveta, mas ele tinha guardado. A fazenda era deles, dos meus pais e disse que, por inveja, Zé contratou um homem pra matar os dois.
Nesse momento alguém surgiu do nada e pulou sobre nós. Era Amaro. Eu caí junto com eles e consegui sair dali.
— Corre, Ana! Corre! – disse Amaro.
Eu corri na direção que Irene estava, e quando já estava chegando perto, ouvi o som do disparo.
— NÃÃÃO! – o som do grito ecoou pela mata e pela escuridão da noite.

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