Uma Prece de Amor – Parte X

O que eram as lágrimas de quando Amaro se foi, se comparadas a essas que escorregavam dos meus olhos agora? Engoli a seco, com a intensão de desfazer o imenso nó que se formava em minha garganta.

Eu não queria chorar, não na frente de Calango. Não podia acreditar que aquilo era verdade mesmo. Talvez ele só estivesse tentando me fazer desistir da ideia de viver com Amaro. Mas agora? Tão perto de nos reencontrarmos? Não podia ser verdade, não podia.

Quantos embaraços eu havia passado por causa desse imenso amor que sentia por ele. O destino nos trouxe para perto um do outro, o levou para longe, mas havia trazido de volta. Isso não podia terminar assim. Amaro não podia fazer isso comigo.

Eu saí daquele quarto com pressa e lentidão ao mesmo tempo. A pressa se dava porque eu queria ir o mais longe que pudesse, para, então, poder chorar e me desmanchar em lágrimas. A lentidão era por causa do baque que aquela notícia havia me causado. E mesmo não querendo chorar ali, as lágrimas desciam com um horrível peso. Eu andava com a mão em minha boca a fim de conter o clamor que saía dela. Quando cheguei perto da cozinha, as minhas pernas vacilaram e eu não consegui mais me manter em pé. Me segurei na parede e fui tentando andar, mas era impossível. Fui me arrastando aos poucos por ela até me sentar no chão e, ali, ficar soluçando e gemendo pela dor que o meu peito sentia. Era um aperto terrível, que fazia com que mais lágrimas saíssem dos meus olhos sem parar. Foi quando vi Zezé, com a visão embaçada pelas lágrimas, vindo correndo e gritando. Eu não consegui compreender, mas acho que gritava pelo meu nome. E quando, finalmente, pode a ouvir ela me perguntava agoniada:

— O que aconteceu, Ana? Fala, mulher, pelo amor de Deus!

Eu só conseguia chorar. Por mais que eu tentasse, não saía uma palavra sequer.

Zezé me puxava, tentando fazer com que eu levantasse dali. E, enquanto isso acontecia, eu lembrava de tudo. De quando o conheci, como começamos a nos falar, nosso primeiro toque e nosso primeiro beijo. Lembrei também da madrinha, dos conselhos e das advertências que ela me dava. “Não confie nos homens, minha filha. Principalmente, os da cidade. Eles não querem nada além de nos fazer sofrer”. E como eu já tinha sofrido por Amaro. Nem se contava nas mãos.

Como essa coisa de amor é estranha. É um sentimento bom, e, sendo assim, deveria nos trazer coisas boas, momentos bons e sensações maravilhosas — mágicas. Ele deveria causar as sensações que eu sempre sentia ao ouvir as histórias de amor na rádio ou assistia as novelas na casa do Zé. Mas não. Muitas das vezes, ele machuca e faz o peito doer severamente. Como as ferradas que os bois levam de seus donos. Eles estão demarcando que, agora, aquele gado pertence a alguém. Por que o amor tem que nos ferrar também? Por que preciso carregar uma marca dolorida, só para mostrar que, agora, eu pertenço a ele? Que dor, meu Deus! Que dor, paizinho. O amor é algo muito péssimo mesmo.

— Fala comigo, amiga! – eu ouvi.

— Ai… Ai, Zezé! – balbuciei.

— Que foi, mana? – seus olhos estavam aflitos.

— Amaro! – e ela foi me levantando aos poucos.

— O que tem ele? Vem! Senta aqui nesse banco. – quando dei por mim, já estávamos na cozinha.

— Ele tá com outra. – ela me deu um copo com água.

— O quê? Quem disse isso?

— Calango acabou de… – tomei um gole da água — ele acabou de falar pra mim.

— Tu é lesa, mana? Isso é mentira dele. Tu sabe que Zé Leitão não gosta da família de Amaro, e, com certeza, aquele filho de uma égua mandou Calango mentir pra ti.

— Será, Zezé? – ofegante e com uma terrível expressão, a olhei.

— Ele é doido! Num liga, não. Tu vai ver que Amaro vem aqui mais tarde atrás de tu, mana.

— Eu espero por isso há mais de três anos! – disse.

— Mas… – ela puxou outra cadeira e sentou — tenho que te contar outra coisa.

— O quê? – ela passeou o olhar em volta, para checar se não tinha mais alguém ouvindo e aí chegou mais perto.

— Zé Leitão… – ela olhou novamente para a porta — tava invadino parte da fazenda de Seu Ramiro. Foi dona Raimunda que me disse. Parece que ele pensou que eles não fossem mais voltar, e até fez um rancho para guardar mandioca lá.

— O quê, Zezé?! Esse… esse Leitão é todo doido. Meu Deus! Isso não vai prestar! – falei e depois tomei mais um gole de água.

— Pois num é, mana! E parece que o Ramiro já sabe, e tá vino chutado pra cá.

Aquilo ia dar um problema maior ainda. Mas tentei não pensar nessa questão. Fui recolher as roupas para lavar e tentei me manter firme. No jirau, eu esfregava as roupas, mas só pensava em Amaro. “É mentira! É mentira! É mentira!”, eu repetia várias vezes para mim mesma, de olhos fechados. Zezé tinha me acalmado, mas lá no fundo do meu peito ainda havia uma dor estranha. Como se o meu coração tivesse acreditado nas palavras que Calango disse, e estivesse me avisando pra ser forte.

O dia todo se passou. Lá no arraial, todos festejavam. Mas eu estava em frente à minha casinha. Olhava pro céu e lembrava do desenho que Amaro fez na árvore perto do rio.

Outro dia fui lá e vi aquele desenho. Estava tão vivo quanto o amor que eu sentia por aquele homem. Chorei e fiquei ali, lembrando dos momentos que fugíamos pra lá. Lembrei do significado de cada traço que formava aquele rabisco.

De repente, um cachorro veio lamber minhas pernas. Até me assustei um pouco com ele, mas logo comecei a passar minha mão sobre sua cabeça. Era o cachorrinho de Calango, o Caroço. Era um nome engraçado, e muito lindinho. Calango tinha lhe dado esse nome porque quando o encontrou, comia uns caroços de farinha que caíam sobre o chão da casa do forno, onde ele a torrava.

— Oi, Caroço. – falei, enquanto me abaixava. Então ouvi alguém estalar a língua, fazendo o som que chama os cachorros.

— Umbora, Caroço! Vem, vem! – disse a pessoa.

Era Calango, que estava indo no rumo da festa. Caroço foi correndo e saltitando atrás dele. Logo depois disso, entrei.

— Madrinha! Posso lhe perguntar uma coisa? – ela também não tinha ido ao festejo, pois sentia dor nas pernas.

— Pode, filha!

— Hoje aconteceu uma coisa estranha na sede. – ela me olhou atentamente.

— O quê, menina?

— Fui buscar as roupa de Zé pra lavar, e quando apareci no quarto, ele jogou umas papelada dentro de uma gaveta e fechou com tudo. A senhora já viu o que tem lá?

— Deve ser coisa dele, Ana! – virou de costas para mim, para guardar umas roupas na velha cômoda.

— Já viu, madrinha? – ela parou e fez uma longa hesitação, e se virou novamente para mim.

— Ah, Aninha! Há tanta coisa que não pode ser dito. Segredos que devem permanecer enterrados para evitar outra desgraça. – ela passava a mão em meus cabelos, como se estivesse fazendo carinho.

— Que segredos? Já teve alguma desgraça? Me fala, madrinha! – e a festa reproduzia gritos lá fora.

newtemplate_1_original-567432347.png

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s