Uma Prece de Amor – Parte IX

— Ana, adivinha quem voltou! – sua respiração era ofegante, tinha vindo correndo. Seu rosto tentava sorrir, mas também tentava esconder uma estranha tristeza.

— Quem, Zezé? – eu disse, com as mãos na cabeça.

— Amaro! Amaro, Ana. Ele voltou pra Bragança.

Aquelas palavras entraram por meus ouvidos e fizeram festa por dentro. Meu coração acelerou, e nada mais fazia sentido agora. Meus olhos se encheram de lágrimas, e tudo o que eu podia pensar era em Deus. Eu o agradecia em minha mente. E depois com palavras.

— Meu Deus! Obrigado! Obrigado, minha santinha! – coloquei as mãos na boca e as lágrimas caíram.

— Dona Raimundo que me disse. O marido dela veio cedo de lá da cidade e falou que os vendedores de farinha lá da feira só comentavam isso.

Ela me abraçou e nós duas pulamos de alegria ali na porta. Mas o que mais me angustiou foi a forma como a madrinha reagiu à notícia. Ficou até braba comigo depois que Zezé se foi.

— Ele foi embora uma vez, Ana. Por que há de ficar agora? Num vai, menina.

— Ele disse que voltaria, madrinha. E eu rezei tanto pra Nossa Senhora trazer ele, que Deus atendeu. – tentei explicar a ela.

— O Leitão não vai gostar disso. Com certeza já deve de tá sabeno, meu Deus.

— Zé Leitão não tem nada a ver com a minha vida, madrinha. – e eu segurei nos ombros dela, respirando fundo e ainda com lágrimas nos olhos.

— Isso é tolice! – ela respondeu.

Depois fui para a sede fazer os trabalhos do dia. Agora a madrinha já não trabalhava mais. Com muita luta, eu consegui fazer com que Zé Leitão aceitasse o afastamento dela dos trabalhos na fazenda. Sugeri que ele contratasse Zezé para me ajudar, pois eu não daria conta de arrumar a grande casa sozinha. A madrinha também não queria parar, alegando que ficaria sem fazer nada em casa e ela não gostava de ficar sem fazer nada. Porém, as dores tomavam conta dela sempre que carregava uma bacia com roupas para os varais. Então, eu consegui convencê-la de deixar o trabalho e ficar em casa repousando.

Quando entrei na sede, Zezé já tinha feito o café para nós. Não vi Zé Leitão e nem Calango na cozinha, então fui recolher as roupas para lavar. Andei em direção aos quartos, com os pensamentos tão distantes dali. Eu já via Amaro chegando à fazenda e vindo correndo para me abraçar. Mas, quando cheguei perto do quarto de Zé Leitão, ouvi uma conversa baixa. Era ele, que falava algo pra Calango.

— … abre o olho. Eles vêm com tudo, e eu preciso me livrar disso. – foram as últimas palavras que ouvi, antes de aparecer na porta do quarto. Vi que Zé jogou uns papéis dentro de uma gaveta e a trancou rapidamente.

— Vou entrar pra pegar as roupa. – falei, foi aí que eles saíram. Os dois estavam desconfiados, e eu imaginei que já sabiam da volta da família Lopes para o Brasil.

Será que logo Amaro viria me ver? Estava tão ansiosa que mal conseguia lembrar onde estava o cesto de roupas sujas. Então eu olhei pela janela, e estava fazendo um dia tão lindo lá fora. O céu azul sorria para mim e eu sorria de volta. Ah! Quanta saudade eu sentia dele, aquele que roubou meu coração desde a primeira vez que o vi.

Há alguns meses, a madrinha tocou no assunto sobre meus pais. Falou algumas coisas estranhas, e até comentou que talvez eu não gostaria de saber o que aconteceu com eles. Ninguém mais no sítio sabia o que realmente tinha acontecido. Como aqui não tem policiamento, não houve nenhuma investigação. Eles eram novos em Santo Antônio dos Soares, e ninguém se dava com eles ainda. Isso era tudo o que eu sabia. E ela, novamente, me disse que no momento certo me contaria tudo. Mas agora era arriscado.

Eu acho estranho que a madrinha nunca tenha falado nada sobre como começou a trabalhar com Zé Leitão. E quando perguntei sobre isso, ela apenas disse que não gostava de falar, porque foi em um momento que estava passado por muita necessidade. Eu deixei pra lá e não disse mais nada.

Todos esses segredos rodando minha cabeça me deixavam mais nervosa do que já era de costume. Mas agora eu já estava mais determinada. Se a madrinha nunca quis me falar nada sobre todos esses segredos de Santo Antônio, eu não perguntaria. Isso não somaria em nada na minha vida.

Pensei em tudo o que já tinha vivido, e que, quando conheci Amaro, ainda pensava nas bonecas da infância, e lembrava, com pavor, de como uma de minhas amigas foi retirada de mim por um monstro. Mas agora eu só pensava em como iria cuidar da madrinha, como a ajudaria nesse momento em que ela já estava tão velha. E pensava em como ia viver com o homem pelo qual eu me apaixonei.

Enquanto arrumava o quarto de Zé Leitão, vi a gaveta que ele tinha fechado bem quando entrei no quarto. Ela estava trancada com a chave. Cheguei mais perto e tentei abrir, mas foi em vão.

— Tudo bem, Ana? – nossa! Levei um susto horrível, que acabei jogando as roupas, que já estavam em uma de minhas mãos, no chão, e isso acabou assustando Calango também.

— Égua, Calango! Doido! Tu quase me matou de susto. Poxa! – e ele foi entrando de vagar no quarto.

— Tá sabendo que o otário tá aí, né?

—  Quem? – fiz que não sabia de quem ele estava falando.

— Amarinho, Ana! O que te deixou pra trás. – e sentou sobre a cama de Zé Leitão.

— Sai daqui, Calango! Deixa eu terminar meus serviço. – e joguei as roupas dentro da bacia o mais rápido que pude.

— Então já sabe que ele voltou, né? Voltou ele, o pai, a mãe e… – eu ia saindo do quarto, mas parei e virei.

— E quem? – perguntei já temendo a resposta que ele daria.

— Pois é! O riquinho voltou das Europa e… – ele parou.

— Fala, Calango. Égua!

— E ele voltou com uma noiva! – senti uma sensação de profunda tristeza naquele momento. De repente, vi meu mundo todo cair. Como se todas as orações que tinha feito durante todos esses anos tivessem sido em vão. Senti raiva, muita raiva.

— Uma… noiva? – falei, quase sem pronunciar direito.

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