Uma Prece de Amor – Parte VIII

Passaram-se dois anos desde que Amaro se foi, e eu ainda choro com a mesma intensidade que o dia que eu estava jogada naquela estrada. Meu grito e pranto ecoaram por cada canto de Santo Antônio dos Soares, e logo a madrinha veio me socorrer. Me levou para casa, enquanto eu berrava como uma criança de colo, gritando por ele.

Lembro-me, como se fosse hoje, de cada detalhe e de sentir a terrível sensação de que algo tinha sido tirado de mim. Como se meu coração tivesse sido arrancado e sido jogado numa fogueira, como as de Santo Antônio e São João. No fim, a madrinha Irene tinha razão, e dona Zuca tinha dito o certo. Não daria certo, e esse negócio de amor é difícil mesmo.

A dona Zuca morreu três meses depois da partida de Amaro, e seu Zé ficou destruído. A madrinha e eu tivemos que assumir algumas responsabilidades na sede, pois a irmã de Zé quis sair do interior. Disse que iria embora e foi. Mas deixou Calango trabalhando com o irmão dela.

Eu rezava uma prece toda noite desde que ele se foi, pedindo que Deus o trouxesse de volta pra mim. Chorava e implorava para que Nossa Senhora o protegesse onde quer que estivesse e que me protegesse também. Amaro me disse que tudo ia dar certo, e eu me apeguei a essas palavras. Lá no fundo eu sabia que ele voltaria. Voltou da última vez e com certeza voltaria agora novamente, não importa o tempo que passe, e eu o esperarei.

Ontem à noite tudo era faísca, uns milhões de faíscas no alto do céu. As da fogueira se confundiam com as do firmamento e se misturavam nas lágrimas que rolavam pelo meu rosto. Amaro era melhor que todas as noites de verão que eu tinha passado dançando em volta das faíscas fumegantes que saem das fogueiras juninas.

— Ah! Meu Deus! – eu dizia enquanto olhava para cima e a festa rolava lá no arraial. — Traga Amaro de volta pra mim, Senhor. Por tudo o que é mais sagrado eu Te suplico. – eu tinha que parar entre as frases, pois as lágrimas já tomavam todo o meu rosto. — Traz ele pra mim, e eu lhe serei grata para sempre, meu Pai. – essa era a minha prece de todas as noites. Rezava por ele e para que Deus o trouxesse para mim.

Não tinha uma noite sequer que eu não olhasse para o céu e fizesse minha prece por Amaro. Confiava em Deus e Nossa Senhora de que ele estava bem e que uma hora ou outra voltaria pro sítio.

— Oi, José! Cadê tua mãe? – ele apontou para uma barraquinha, a única que fora construída esse ano. Zezé conversava com dona Raimunda, e estava comprando um tacacá. Depois me viu e veio até mim.

— Oi, Ana! – com toda a alegria que ela sempre demonstrava ter, mesmo que a vida não estivesse fácil.

— O José tá grande, né mana? Os anos se passou e eu nem me toquei. – olhei a fogueira, era pequena e já estava se apagando. Quase ninguém mais se importava com a tradição de que ela deveria queimar até o fim da festa. A festa agora durava apenas duas semanas, começando no dia 13, isto era a única coisa que não tinha sido mudada.

— Ah! Só quer saber de correr por aí. Eu nem ligo mais. – disse ela.

— Deixa ele! – dei um sorriso e logo ele se foi. Zezé percebeu isso e tentou ajudar. Ela soube de tudo o que aconteceu, todos sabiam. Eu havia me jogado no meio da estrada, gritando desesperadamente por Amaro.

— Tu tem esperança que ele vai voltar? – indagou. Eu desviei o olhar para baixo.

— Tenho fé em Deus! Foi o pai dele que levou ele.

— E se ele se apaixonou por outra, Ana. Como fica?

— Não, Zezé. Ele me disse que ia dar certo.

— É! Mas já tem mais de três anos isso.

Eu apenas abaixei a cabeça, e em minha mente só se repetia um pedido incessante para Deus: “traga-o de volta pra mim!”. Era isso que me atormentava agora. Não o pedido, mas a luta dessa fé toda que havia sido formada dentro do meu peito contra a incerteza que todos jogavam sobre mim. E eu já não aguentava mais ver os dias correrem sem que eu tivesse nenhuma notícia de Amaro.

Zezé percebeu minha tristeza e foi atrás de José. Eu fui saindo aos poucos, tudo o que queria naquele momento era ir pra casa e chorar muito, diante do pequeno altar que a madrinha havia construído ali. Nele tinham duas Bíblias velhas, uma imagem de Nossa Senha, uma de São Benedito, uma de Santo Antônio e outra de Jesus Cristo na cruz. Sobre cada uma das Bíblias havia um terço, que também já estavam velhos. Mas Zé Leitão viu que eu estava sozinha e foi até mim.

— Ana! – ele mexeu a cabeça demonstrando respeito. Estava com um chapéu de vaqueiro, uma calça jeans e uma camisa social quadriculada. Em seus pés uma bota que deveria ter custado o olho da cara.

— Como vai? – falei, sem muito entusiasmo.

— Vai ficar assim comigo?

— Estou normal contigo, Zé! Para com tuas lacueras. – eu não estava. Ele havia cismado que eu deveria morar em sua casa. Não queria que a madrinha fosse, mas queria pra eu ir. Jamais a deixaria sozinha naquela casa velha.

— Calango me disse que tu foi até o rio. Posso saber o motivo? – eu olhei para ele com cara de quem não dava a mínima.

— É sério isso? Vai ficar me controlando agora?

— Claro que não, Ana. É que… – ele olhava para todos os lados como se procurasse algo — me preocupo com tuas saídas. Santo Antônio tá periogoso esses tempos. – fiz um bico e enrijeci os olhos.

— Perigoso, é? Vou pra casa. – e fui saindo.

— E a festa?

— Tá sem graça!

Passei pelo portão e fui direto pra casa. Nada me deixava feliz desde a partida de Amaro, nem as festas juninas que eu tanto amava. Já em casa, fiz uma última prece, desta vez por mim e pela madrinha. Que Deus nos ajudasse agora mais que nunca. Porque a madrinha já estava velha demais e apresentava alguns problemas. À noite sentia muitas dores e já não dava mais conta de trabalhar.

Acordei com batidas fortes na porta da casa. A madrinha estava de pé lavando o rosto e se assustou com as batidas tanto quanto eu. Nós sempre acordávamos bem cedo, mas naquele dia passamos do horário. Será que era Zé Leitão querendo café?

— Quem é? – perguntei. E fui chegando perto da porta para que pudesse ver pelas brechas quem estava tão desesperado a ponto de quase colocar a porta abaixo.

— Aninha? – respondeu, e eu logo reconheci a voz. Com muita rapidez abri a porta com tudo, tentando arrumar meus cabelos com as mãos.

— O que foi? – perguntei.

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