Uma Prece de Amor – Parte VII

Os dias se passaram voando como o vento. Amaro e eu nos tornamos mais apaixonados que antes, e começamos a namorar.  Claro que Zé Leitão não gostou nada da história. Fez até um escândalo, mas logo dona Zuca piorou e eles tiveram que ir para a cidade. Mas não foi só ele que não gostou da história, os pais de Amaro também não. Eles não queriam que o filho, que estava se formando em Biologia na cidade, namorasse uma caboquinha do interior que nem eu.

— Terei que voltar, Ana! As férias estão acabando e eu tenho que concluir a faculdade. Vou fazer a defesa do meu trabalho, e quero que tu esteja lá me assistindo.

— Amaro, não posso. Não tem como eu ir, seus pais não vão deixar.

— Eu falo com eles. Pode deixar! – ele disse.

Eu já sabia que isso não daria certo. Principalmente porque seu Ramiro desfez amizade com Zé Leitão. Ele descobriu que Zé tinha votado num partido contrário ao seu nas eleições passadas. O candidato de Zé ganhou, e por conta disso, o país começou a viver uma guerra, uma divisão. Aqui no interior não se via muito, mas sempre que eu via um noticiário na casa do Zé, eles falavam do caos que tava o país. Zé Leitão perdeu um amigo e o seu melhor cliente de farinha. Sua raiva só aumentou, e disse que nunca mais queria ver nenhum deles em sua fazenda. Isso piorou minha relação com Amaro. Os pais dele não aceitavam nosso romance e muito menos que eu fosse com ele para a cidade. Ele foi com eles, disse que demoraria um tempo, mas voltaria. E voltou alguns meses depois, dizendo que estava pronto para viver comigo.

Disse que me levaria daquele lugar, e que nós viveríamos felizes longe dali. Primeiramente, ficaríamos por Bragança e depois ele daria um jeito de irmos para outro estado.

Apesar de ser uma ideia maravilhosa, e de eu estar quase realizando o sonho para o qual Zezé, Carlinha e eu ensaiamos tanto, disse que precisava pensar. Havia muita coisa em jogo. Eu pensava, mais que tudo, na madrinha. Não queria deixá-la depois de tudo o que ela já tinha feito por mim, e eu tenho certeza de que ela nunca iria querer ir embora de Santo Antônio do Soares.

Um dia, já quase no fim de dezembro, o convidei para irmos ao rio, estava decidida a enfrentar meus fantasmas e superar aquele trauma. Fomos, e foi um dia maravilhoso. Nós banhávamos e nos divertíamos como eu nunca mais havia me divertido. Uns pássaros voavam gritando e fazendo várias acrobacias no céu.

— Eles estão indo em busca de outro verão. – disse Amaro, enquanto olhava para cima.

— Parecem muito alegres! – eu disse, olhando para a mesma direção, percebendo de relance que ele, agora, me observava.

— Sim! E eu te amo e te quero com a mesma alegria que eles exalam. – eu fiquei toda boba com tudo aquilo. Ele falava tantas frases bonitas, e eu me apaixonava cada vez mais.

Perguntei se ele era o garoto que, quando éramos crianças, aparecia na fazenda de Seu Ramiro. Ele confirmou e disse que odiava quando nós o chamávamos de osga. Eu falei que, na verdade, era Carlinha que fazia isso. Disse-me que tinha medo, pois sua mãe havia dito que as crianças daqui eram maldosas e os adultos eram muito estranhos. Mas agora ele já conseguia perceber que não era bem assim. O destino fez com que ele retornasse pra cá, para mim.

— Olha! – disse ele, me mostrando um desenho que tinha feito em uma árvore que estava perto do rio. Riscou com um pedaço de arame que encontrou por ali, fez um coração meio torto e dentro tinha uma letra, e em cima dela havia uma coroa. Em volta do rabisco do coração ele desenhou várias estrelas.

— O que é? – perguntei. Ele disse que só tinha uma letra porque desde o momento que nos conhecemos, nos tornamos um só. Era a letra A, e representava nossos nomes.

— As estrelas cantarão do nosso amor para sempre. – acrescentou.

— E a coroa? – perguntei, com um riso tímido, achando aquilo tudo maravilhoso.

— Nós somos rainha e rei. – ele respondeu. E eu o beijei, sentindo o sabor daquele momento lindo e daquela história maravilhosa que estava vivendo. Essa besteira estava dando certo, apesar de quase todo mundo ser contra.

O Natal passou com a mesma rapidez que o outro ano iniciou. Quando toda a festa já tinha passado, Amaro voltou da cidade com alguns presentes. Nos encontramos no rio, e lá ficamos deitados sobre uma tábua que ficava na beira. O presente era um anel maravilhosamente lindo. Sim! Era o pedido de um relacionamento mais sério. Eu aceitei logo, mesmo sem pensar que até a madrinha não aceitaria, com medo de que o Zé nos expulsasse da fazenda. Ela falava disso quase toda noite, reclamava que não teríamos para onde ir e que ele podia fazer isso a qualquer momento. Mas alguma coisa nas palavras dela me fazia perceber que ela mesma não falava nada daquilo com convicção, a conhecia o suficiente para saber quando ela estava só tentando conseguir algum efeito. Mas o pedido que Amaro me fez renovou minhas forças, algo me dizia que tudo daria certo pra nós, até mesmo para a madrinha.

Porém, alegria de pobre dura pouco. Um dia depois, Amaro pediu para me encontrar, e estava desesperado. E, de repente, um medo terrível fez com que todos meus pelos se arrepiassem.

Nos encontramos no caminho, onde o Sol nos adornava inteiramente, e havia um grande vale abaixo.

— Tu tem que ir mesmo? – eu falei, após ouvir a notícia.

— Tu sabe como é o meu pai, Ana! – ele chorava. —  Eu fiz de tudo para que ele não fosse, mas ele disse que era muito arriscado para todos nós. Ele é muito extremo.

— Meu Deus! Eu rezei tanto para darmos certo. – eu tentava ser forte e não chorar.

— Nós daremos certo! Pode ter certeza!

Passamos aquele fim de tarde abraçados e juntos. O pai dele disse que eles viajariam para a Europa, porque o país tinha ficado perigoso demais pra eles. Alguns dias antes de nos encontrarmos eles receberam uma carta anônima com algumas ameaças. Os pais de Amaro ficaram apavorados, e tomaram a dura decisão de irem embora. Na frente dele eu fingi estar bem, mas quando fui pra casa chorei tanto.

Tínhamos marcado de nos encontrar novamente no outro dia no mesmo local. Eu fui e fiquei esperando muito tempo, mas ele não apareceu. Então eu voltei para a fazenda, e foi quando, de longe, percebi que havia um carro em frente ao portão da fazenda de seu Ramiro. Eles carregam algumas coisas para dentro do carro, e foi neste momento que o vi saindo na porta. Ele ficou por um tempo ainda olhando para a fazenda de Zé Leitão, e acho que queria ver se eu estava por lá, carregava um bolsa e aparentava estar muito triste. Seu pai saiu do carro e lhe disse algo, estava bem bravo, e fez com que Amaro entrasse no carro. Era muito longe para eu chamá-lo, então eu corri. Corria e o chamava. Mas era tarde demais.

— AMARO! AMARO! POR FAVOR, NÃO VÁ! – eu gritava, sem ligar para a irritação que sentia na garganta.

— Amaro… não! – chorava descontroladamente. O carro foi mais rápido e o levou embora para longe de mim, sem nos dar a chance da despedida. Me joguei no chão, fazendo com que a poeira levantasse e a terra meio encarnada sujasse todo o meu vestido, e uma última vez eu gritei:

— AMARO!

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