Uma Prece de Amor – Parte VI

A noite chegou e eu estava nervosa, tão nervosa quanto a primeira vez que Amaro tocou em minhas mãos. E ao mesmo tempo em que o nervosismo tomava conta de mim, a ansiedade se manifestava também. Estava ansiando o momento em que nos encontraríamos novamente, estava contando as horas. Mas ele não podia perceber que eu estava doido para encontrá-lo, e eu não podia deixar a madrinha perceber também.

As noites de festa durariam até os últimos dias do mês, e nós teríamos tempo de sobra para nos ver. Eu sempre me lembrava da primeira vez que nos vimos, daquelas faíscas subindo e nós nos olhando como se o momento estivesse pausado para que pudéssemos apreciar por um bom tempo a nossa visão perfeita um do outro.

— Eu quero que tu seja muito feliz, minha filha. Tomara Deus que ele seja um bom rapaz. – disse a madrinha, olhando para mim logo após passarmos pelo portão da fazenda em direção ao arraial.

— Ele é, madrinha. Eu pude ver nos olhos dele. Não parece que quer me fazer mal. – eu disse, olhando profundamente em seus olhos e segurando firme a mão dela. Ela me olhou com um riso penoso e me abraçou. Por um momento senti que estava fazendo a pior besteira da minha vida, e que a primeira vez que não seguia os conselhos da madrinha me faria quebrar a cara. Mas no mesmo instante eu sentia que seria muito feliz por causa dessa besteira.

Mais a frente encontrei com Amaro, e aquela noite foi uma das melhores da minha vida. Eu dancei e o ensinei a dançar também. A madrinha olhava para nós com um sorriso no rosto, mas Zé Leitão observava tudo com a expressão fechada. Ao seu lado estava Calango, e de vez em quando cochichava alguma coisa com o Zé, pondo a mão na frente da boca para que ninguém pudesse saber o que eles falavam.

As faíscas subiam, os gritos abafados zuniam em meus ouvidos e o meu suor se misturava com o dele. Dançamos quase que a noite toda, e quando vim embora ele veio comigo até o portão, disse que no outro dia teríamos um passeio, e foi embora.

— O que foi aquilo, Aninha? – perguntou Zé Leitão. Ele viu que Amaro veio comigo e veio atrás, esperou que ele saísse e veio até mim.

— O quê, Zé? – perguntei.

— O que tá fazendo com o filho do Ramiro?

— Ah, seu Zé, ele é uma pessoa muito boa. Estou gostando de ter conhecido ele, sabe?! – eu já não queria esconder mais nada. Queria que todos soubessem que estar com ele era algo muito bom e que ele me fazia bem. Porém, Zé Leitão não tinha gostado nada do que estava acontecendo entre nós.

— Ele não quer nada contigo, Ana. Larga de ser besta! O máximo que ele vai querer é te iludir e depois ir embora. – meu sorriso se desfez. Zé Leitão nunca havia me tratado daquela forma, sempre me tratava bem. Já me preparava para responder quando a madrinha veio chegando com umas bacias nas mãos, dizendo:

— Vamu logo, Ana! Me ajuda aqui! – e foi jugando umas bacias para as minhas mãos, e fomos embora.

Amaro quis me encontrar de tardezinha, quando o laranja do pôr do Sol fazia um lindo contraste com as silhuetas que se formavam de nós dois sobre o caminho em cima do grande vale. Ficamos alguns minutos olhando para o horizonte só observando o Sol se enfiando entre as matas daquela parte mais baixa. Depois ele me olhou fixamente, e disse:

— Tu é tão linda!

— Obrigado! – respondi abaixando o olhar, ele sorriu e disse:

— Gosto da tua timidez. Só deixa você mais meiga. Eu olhei pra ele.

— O que é isso?

— Meiga? Não sei, deixa pra lá! Mas… Me responde uma coisa. – eu só espremi meus olhos. —  Por que que tu não gosta de ir no rio?

— Ah! É uma história muito comprida. Coisa antiga!

— Eu ouço. Posso ficar aqui o tempo que precisar. – ele sorriu, mas desfez o sorriso quando eu não o devolvi.

— Desculpa, Amaro! Eu num costumo falar disso. Se eu chorar, me perdoe.

— Tudo bem! – ele disse. Então comecei a contar sobre minhas duas amiguinhas de infância, disse que brincávamos e que sempre íamos ao rio sozinhas.

— Um dia, a mãe de Carlinha sentiu falta dela e veio perguntar para a madrinha se ela estava aqui. Eu respondi que não, não a tinha visto naquela manhã. Só demorou alguns minutos para a mãe dela se desesperar e pedir ajuda pra todo mundo. Zezé e eu tivemos a ideia de irmos ao rio, ela poderia estar lá.

— E aí? – ele perguntou quando eu hesitei por um momento. Aí uma lágrima caiu sobre o chão. E eu continuei, tentando não permitir que o choro fizesse minha voz falar.

— Ela estava lá. O caminho que leva até lá é estreito, como Zezé ia na frente ela foi a primeira a ver. Estava… – passo a mão no rosto. —  caída, cheia de sangue. Estava só com a blusa, as outras peças estava no chão um pouco longe dela. Começamos a gritar desesperadas. As pessoas que estavam por perto vieram e viram também, foi horrível ver aquilo. Ela tinha… Sido abusada e… Morta. – eu já não aguentava dizer mais uma única palavra.

Ele me pegou em seus braços e me apertou forte. Eu soluçava em seus ombros, naquele momento já tínhamos uma intimidade tão grande que eu nem pensei em não aceitar seu abraço. Seus braços eram um pouco musculosos, músculos não tão grandes, mas definidos. O cheiro era de um perfume suave misturado ao cheiro impregnante do seu corpo. Senti um choque nos bicos dos seios, e um calor se ascendeu dentro de mim. Senti seus cabelos castanhos roçando os meus. Ele pedia que eu me acalmasse, sua voz me deixava descontrolada. Eu nem conseguia mais lembrar que chorava e o porquê do choro. Desgrudei a cabeça de seus ombros e abri os olhos lentamente, seus olhos estavam faceiros, ora em meus lábios, ora em meus olhos. Quis beijá-lo naquele momento, mas me controlei. Nossas respirações se misturavam de tão próximos que estavam os nossos rostos, vi cada detalhe do dele. Os olhos castanhos apareciam ainda mais com a luz do Sol se chocando contra ele. E então, ele tomou a iniciativa e encostou seus lábios macios nos meus. Não me afastei, não rejeitei. Eu já queria isso desde a primeira vez que o vi.

— Desculpe! – foi tudo o que ele disse depois disso, eu só abaixei a cabeça, com um riso no rosto e com vergonha novamente.

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