Uma Prece de Amor – Parte V

Agora eu olhava as estrelas de forma diferente. Já não tentava formar o rosto de meus pais, pois, sempre que olhava pro céu, era aquele rapaz que eu via. Dona Zuca havia colocado mais dúvida em minha caixola. Logo quando eu já tinha decidido esquecer tudo isso, esquecer que aquele rapaz esteve por aqui e seguir a vida.

Caminhei mais um pouco até o portão e vi lá fora, tudo de novo. As crianças já estavam correndo em volta de outra fogueira bem menor que a da noite passada. Umas senhoras vendiam comidas em umas barracas, e outras dançavam com seus homens no meio do arraial. Eu sorria ao ver a alegria de cada um deles, e nem me dava conta de que sorria ali sozinha.

— Boa noite, moça! – ouvi, e meu sorriso se desfez rapidamente. — Não vai sair correndo, por favor!

— Olha! Desculpa por ontem, moço… égua, o senhor deve de tá me odiano. – ele se escorou ao meu lado, no portão e falou:

— Não! Que nada! Só fiquei triste mesmo por tu ter ido embora sem ao menos me dizer teu nome. – ele olhou para mim e sorriu. Eu, toda boba, desviava sempre o olhar, aquilo me envergonhava. Me sentia insegura comigo mesma.

— É Ana! – falei, com um riso tímido e meio desconfiado.

— Ana! Graciosa! – ele serrou os lábios, sacudindo a cabeça lentamente.

— Obrigado, moço! – fiquei vermelha, eu sei que fiquei, meu rosto ardia, mas meu coração tomava todo aquele calor para si. Ele apertava e depois soltava impulsivamente, era uma doidice só o que acontecia em mim.

— Ah! Desculpe! É Amaro. Não me chame de moço. Assim pareço ser mais velho. – ele estendeu a mão direita.

— Ah! – resmunguei qualquer coisa. Queria dizer algo que fizesse sentido. Procurava em minha mente, mas as desgranhadas das palavras tinham sumido da minha cabeça.

Estendi a mão, enquanto meu olhar ficou preso nas covinhas que se formavam em seu rosto e no lindo sorriso que emanava de sua boca. E, de repente, senti seu toque. Era tão quente e macio que me fez estremecer por dentro, e fez minha barriga se retorcer toda com o nervosismo que eu sentia. Eu nunca havia sentido aquilo antes. Via em seu rosto a dança que o encarnado da fogueira fazia, e o reflexo dela dentro dos seus olhos brilhantes que não queriam desgrudar de mim desde a primeira vez que me viram.

— Posso ajudar, Aninha? O rapaz incomoda? – perguntou alguém que não notamos a aproximação. Desviamos o olhar para ele e soltamos rapidamente nossas mãos.

— Ah! Não, seu Zé! Está tudo bem! Eu… – antes que terminasse de dizer, ele pegou em meus braços e falou:

— Tá bom! Então vamos, que dona Irene quer sua ajuda lá no arraiá! – e foi me levando para longe de Amaro. Eu olhava para trás, e ele me olhava também, tristemente. E fomos, Zé e eu, até a madrinha.

Amaro circundava o arraial desinquieto, como se quisesse alguma coisa. Principalmente quando fui para o meio da festa e comecei a dançar o carimbó que tocava na caixa de som. Eu nunca havia me sentido tão viva, como se estivesse sentindo orgulho de estar dançando ali. Não queria, mas dançava para ele, queria me mostrar. De um lado, ele me observava com um sorriso bobo e os olhos cheios de amor, enquanto eu dançava feito louca, como as chamas que emergiam da fogueira; e do outro, Zé Leitão olhava com a cara fechada, como se não estivesse gostando de me ver daquele jeito. Perto dele, a madrinha tentava não transparecer que estava preocupada comigo e que não notava meus olhares incontroláveis para Amaro e os dele para mim.

Depois de terminar a dança, fui um pouco distante para respirar melhor e me livrar do suor.

— Graciosa e dançarina! – eu virei com um susto, e pus a mão esquerda no peito. —  Desculpa! – ele disse.

— Tá! E… Obrigado, moço! – ele me olhou e entortou a cabeça, triste. — Amaro! Desculpa! – ele sorriu e ficou ao meu lado me olhando, enquanto eu olhava para a folia.

— Mora com o José Leitão? – perguntou, encruzando os braços.

— Não! – franzi o cenho. —  Eu trabalho pra ele junto com minha madrinha. Moro com ela naquela casa lá atrás. – apontei para a casinha velha.

— Ah, tá!

— O Zé disse que tu num é de confiança. Que… – parei para olhá-lo. — só quer saber da bebedeira. – ele me olhava.

— Alguém disse um dia que é do lado dos bons que a gente fica melhor. – e deu um pequeno sorriso.

— Quem falou isso? E… o que quer dizer? – perguntei, e um riso torno se criou em meu rosto.

— Um escritor… esqueci o nome. Mas significa que… algumas pessoas têm o poder de mudar as outras com sua simples presença. – eu sorri e corei.

— Mas… esse Zé Leitão. Ele é amigo do meu pai. Soube que eles se dão muito bem, mas parece que ele não… – olhou pra baixou e chutou de leve um mato em sua frente.

— O quê? – fixei o olhar nele.

— Parece que não foi com a minha cara.

— Ah, não! É só o jeito dele… depois tu vai ver que ele é boa pessoa. – e dei um riso.

— Espero que sim! – ele abriu outro sorriso que me fez estremecer novamente. Um silêncio se segui entre nós. Ouvíamos o barulho da festa e os grilos cantando alto.

— Tenho que ir agora. Vou junto com a madrinha! – e fui logo caminhando.

— Ana! – ele chamou, e eu virei. — Podemos nos ver amanhã à tarde?

— Sim! – respondi com um risinho imprensado pelos meus lábios cerrados. E nem me dei conta do que tinha respondido. Eu trabalhava o dia todo. Como sairia com ele? Eu tava ficando louca. Esse sentimento tava me cegando. Que loucura!

No outro dia, fiquei no portão esperando que ele viesse. Quando o avistei vindo, a madrinha tava trazendo roupas para estender nos varais de fora, e observava tudo o que eu fazia. Conversamos um pouco e fomos andando até longe pela estrada. Ele fazia perguntas sobre o que eu fazia aqui em Santo Antônio do Soares, e se eu gostava do que fazia. Eu contei tudo para ele, e até falei que não tinha os pais vivos. Fui perdendo a vergonha e comecei a virar um papagaio, não parava de falar. Ele ouvia, sorria, fazia expressões tristes e me parava sempre que aparecia um buraco cheio de água, no caminho.

— Soube que tem um rio lá embaixo. Quer me levar pra conhecer? – ele perguntou.

Eu parei. Não sabia o que dizer. De repente, as palavras fugiram de mim. Não podia ir lá, não conseguiria sem chorar. Então, percebi que o céu estava todo laranja, e vi o pôr do Sol lá no horizonte. Havia ao lado dessa parte do caminho na qual estávamos um grande vale, que fazia com que a gente ficasse no alto, de frente para o Sol.

— Acho que já tá tarde, já! Tenho que ir agora. Outro dia a gente vai. – e andei rápido pelo caminho que tínhamos feito até ali.

— Vamos nos ver à noite, né? – ele perguntava enquanto corria para me acompanhar.

— Claro que sim, e dançaremos até! – a maior parte das coisas que respondo a ele é involuntária. Aquilo foi a pior das que já tinha respondido. E nós chegávamos ao portão quando ele gritou:

— TÁ BOM, MAS VAI TER QUE ME ENSINAR!!!

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