Uma Prece de Amor – Parte IV

— Mas o que foi aquilo, Ana? – perguntou a madrinha após chegar perto de mim. Eu estava escorada na cerca, olhando para cima.

Havia chegado um pouco cansada da correria, e logo após descansar mais, comecei a me chamar de doida varrida. Corri de um homem que só estava conversando comigo. Mas fiquei nervosa. Na hora eu não sabia o que fazer, deixei o milho queimar todo enquanto fazia cara de pomba lesa. “Minha nossa senhora, que lerda!”, pensei.

Sem desviar o olhar para o céu, respondi:

— Aquilo o quê, madrinha?

— Ah, Ana! Ele não é pra ti, minha filha. É um coração e uma vida longe demais para alcançar. Não se engane, e não esqueça o que eu sempre falo sobre esses rapazes da cidade.

— Do que a senhora tá falano? – fiz-me de sonsa.

— Olha lá! Depois não diz que não te avisei. Eu vi como tu olhava pra ele. – ela sempre sabia o que dizer e porque dizia. Eu sempre gostava de ouvir os mais velhos, de conversar e escutar as histórias que eles tinham vivido. Era por isso que Zé Leitão gostava tanto de mim, eu sempre dava atenção pra dona Zuca — como eu chamava carinhosamente dona Zuleide —. Algumas vezes entrávamos pela noite conversando. Ela me contava de como tinha vindo do Nordeste, e sobre a sofrida vida que teve antes de vir pra cá. Mas eu nunca sabia se era tudo verdade ou não, pois já fazia alguns anos que ela havia sofrido uma perda de memória. O médico disse que era por causa de tantos remédios que ela tomava para se acalmar. Nunca ficou bem desde que o esposo morreu aqui mesmo em Santo Antônio do Soares, depois de não ter pagado uma conta na quitanda. O dono o matou a terçadadas, deixando Alberto Leitão todo esquartejado no meio da rua, e logo depois fugiu. Com certeza a madrinha estava falando o certo, eu tinha que dar ouvidos ao que ela dizia, apesar do meu corpo inteiro estar pedindo outra coisa.

Depois de ter me falado essas coisas, a madrinha voltou para a festa. Eu fiquei um pouco mais de tempo ali e depois fui pra casa. Antes de dormir, fiz minha prece para Deus. Eu sempre fazia isso antes de pegar no sono, rezava pra quantos santos pudessem me ouvir. Fiz uma prece diferente, não era monótona como as outras. Falei pra Deus dos meus sentimentos e pedi que, se fosse paixão ou qualquer coisa do tipo, os tirasse de mim. E, por fim, chorei.

Antes de pegar no sono, podia ouvir o som da música e das pessoas gritando lá no arraial. Como nossa casinha ficava mais distante, o barulho não incomodava tanto. Daí dormi e só acordei no outro dia com a madrinha já pronta para ir à sede.

— Umbora? – disse ela, enquanto amarrava a rede em cima.

— Aaaah! – bocejei, a fim de espantar o sono, e disse: — Bora logo, o homi já deve tá acordado.

Então saímos. Enquanto caminhávamos eu podia ver o Sol surgindo por detrás de umas mangueiras. Algumas galinhas cacarejavam, e umas cabras berravam ao longe. Eu olhava para o lado de fora do portão. Tudo em silêncio, as bandeirinhas dançavam de vez em quando, sempre que uma rajada de vento passava por elas. Me distraí olhando para as madeiras queimadas no meio da rua, era o resto do que a grande fogueira havia deixado ali. Meus olhos correram pela cerca e saltaram do limite da fazenda de Zé Leitão até a cerca da fazenda de seu Ramiro. E, de repente, um susto quase parou meu coração.

Lá estava ele, olhando para mim com um balde em suas mãos e levantando-se lentamente. Seus olhos pareciam alegres com o que estava vendo. Então ele simplesmente acenou e sorriu. Enquanto eu só abaixei a cabeça com um pouco de vergonha e olhei novamente, mas logo desviei o olhar e andei rápido até alcançar a madrinha. Tenho certeza de que seus olhos continuaram a me perseguir até a entrada da grande porta da sede, pois quando a fechei, lentamente, pude ver pela brecha, que ficava menor a cada milésimo, que ele continuava do mesmo jeito: olhando, e com um lindo sorriso no rosto.

— Bom dia, menina! – uma voz gritou lá de dentro da casa, e me fez tomar um susto. Eu, disfarçando, respondi:

— Ah! Oi dona Zuca! Bom dia!

Ela franziu o cenho, empurrou a cabeça apontando para a porta, e disse:

— Quem era? – levantei a cabeça desconfiada.

— Quê? Tá falano o… que, dona Zuleide? – caminhei um pouco para disfarçar minha inquietação com o rumo que a prosa estava tomando. Falávamos baixo, não deu para Zé ouvir, já que ele estava assistindo TV na sala bem perto de nós. Assistia ao primeiro jornal do dia.

— Ah, menina! Já sou bem vivida, velha o suficiente para entender as coisas! Principalmente para saber o que é um olhar de amor. – ela olhava pela janela, como se estivesse tentando resgatar algum momento no passado. Eu apenas parei e me ajoelhei em frente à sua cadeira de balanço.

— Amor? – virei o rosto, procurando esconder minha vergonha. Ela segurou minha mão e olhou em meus olhos. Pude ver que as lágrimas queriam já sair. Olhei seu rosto com peles caídas, mostrava-me muita experiência.

— Sabe, Aninha! Te conheço faz é tempo, e nunca te vi assim. Eu tive vários homi nessa vida, me casei três vezes, mas amor mesmo eu só tive por um. – respirou fundo e continuou —  Mariano! Ah… eu era danada atrás daquele cabra bonito.

— Ele era do Bacabal também? – a interrompi.

— Hein? Ele… era! Era do Bacabal. Foi amor que eu senti. Foi! – balançando a cabeça e apertando os lábios.

— O que aconteceu, Zuca?

— Ah, minha filha! As condição não era das melhores, né? Eu, filha só de mãe… tive que trabalhar nos rio, lavando as roupa dos outro. E ele foi embora atrás de emprego sem nunca ter me dado ao menos um abraço. Engravidou umazinha lá, que foi com ele junto. E a velha aqui… rum! Tive que ralar pra não morrer na amargura que ele deixou meu peito. – uma lágrima já corria de cima abaixo do seu rosto. —  E só vi essa cara de amor de novo agora. Quando tu fechou a porta. Tá amando, Aninha?

E eu estava. Como iria esconder? Confessei tudo a ela, e falei também do medo e do que a madrinha havia me falado sobre os homens da cidade, que vinham por essas redondezas. Falei que estava com medo do que estava sentindo e com medo de ser abandonada por ele, ou de estar me iludindo com algo que talvez nem existisse.

— É… esse negócio de amor é difícil. A gente morre de medo do que pode acontecer, mas morte pior é quando se morre sem saber se poderia ter dado certo ou não. A incerteza é a pior das causa de óbito, Aninha.

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