Uma Prece de Amor – Parte III

A poucos metros nos entreolhávamos. Era escuro, mas ele não conseguia parar de querer grudar seus olhos em mim. Sua mãe lhe falava qualquer coisa, mas parecia não a ouvir. Eu lutava contra mim mesma para tentar sair daquele transe, mas era em vão. Fiquei totalmente boba com aquilo.

Ele vestia uma camisa social branca, as mangas estavam enroladas até um pouco acima dos braços, os botões seguiam uma linha até ser interrompida pela abertura na camisa, causada pelo seu peitoral robusto. Não consegui distinguir a cor da bermuda que ele usava, mas, só por usá-la, mostrava ser um homem elegante.

Onde estava o barulho das crianças que antes gritavam? Onde estava todo mundo? Tudo havia fugido de mim naquele momento, e até a fogueira já não ardia tanto quanto a terrível sensação de queimação em meu peito. Minha respiração começou a ficar ofegante, o pensamento me abandonou, e os meus sentidos pararam abruptamente. Só os olhos continuaram firmes, até que foram baixando após se ascender em mim uma enorme vergonha por ter passado tanto tempo olhando para ele. “Que burra!”, pensei. Virei a cabeça e hesitei por um segundo.

— Meu Deus! Que vergonha! – disse baixinho, olhando para o chão e respirando forte, até começar a andar.

Engoli a seco e tentei me manter firme, pois tinha total certeza de que seus olhos ainda me seguiam. Por um momento achei que fosse tropeçar e cair, mas me mantive em pé. Ele era um típico homem da cidade, que tinha uma vida bem melhor que a minha, que tinha boas roupas e uma família grande. E aí foi quando pensei “não é para mim!”. Como poderia? Um rapaz como ele jamais me notaria. Nunca alguém viria da cidade até o interior para notar uma desastrada que mal sabia se vestir. Senti uma enorme vergonha de mim, das roupas que usava e de como eu tinha parado no meio de todos, perto da fogueira, para ficar admirando sua elegância. Nunca tinha sentido tanta vergonha. Naquele momento me comparei à Eva quando comeu do fruto proibido e sentiu que estava nua, abriu seus olhos para o mau. Eu me sentia má, fiquei com vergonha do que Deus iria pensar, e não quis nem erguer a cabeça para olhar pra lá novamente.

— Que diabo tu tem? – perguntou-me Calango.

— Nada.. eu.. é! – eu simplesmente ouvia o que ele falava, mas não conseguia assimilar nada. Meu pensamento tinha ficado no meio do arraial.

— Iiiiiiih! Tu nunca ficou assim, Aninha. O patrão te contou alguma coisa que tu gostou, né? – fez uma cara estranha ao terminar.

— Que patrão? – recobrei minha consciência plena, e aí lembrei. — Tá doido Calango? Nem vi ele por aqui ainda.

— E por que tá toda xonga aí? – ele inventava palavras quando não sabia dizer algo. Quando ele falava essa tinha a ver com a palavra “boba”.

— Ah! Me deixa, égua! – peguei uma espiga de milho que estava sobre o balcão de uma barraca sem nenhum vendedor nem comidas, e joguei no fogo mais à frente.

— Mas olha! Tu te toca, viu? Tô de olho! – ele saiu todo embravecido, mas na maioria das vezes ele conseguia ser bem mais irritante. Era mais alto que seu tio Zé Leitão, magro e os cabelos eram ralos e encaracolados. Tinha já uns trinta anos, sei lá, ele nunca dizia.

Mas Calango não importava naquele momento, eu já me sentia culpada o suficiente. Meu coração palpitava de uma forma que nunca havia sentido, mas sentia culpa por isso. Remorso pelo que não tinha sido realizado, pelo castigo que Deus me daria. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo. Apesar de ter gostado. Gostei, gostei muito do que havia acontecido. Sim, eu gostei. “Que louca!”, repreendi a mim mesma.

Minhas mãos correram ao meu rosto e o apertaram fortemente, até que, de repente, senti que ele ardia. Estava corada, mas parecia não ser mais de vergonha do ocorrido, e sim de eu ter chegado à conclusão que não imaginei que fosse acontecer tão depressa e numa noite de festa: eu estava apaixonada. E apaixonada por alguém que eu nem conhecia. Alguém que só vi rapidamente e uma vez na vida. Mas sabia que não daria em nada, que seria só mais um sentimento passageiro, sem importância alguma. “Vou voltar a me concentrar na festa”, pensei. Mas…

— Olá! – e meus lábios perderam a cor, meu coração pareceu parar de bater e a barriga se contraiu de tal forma que me deixou imóvel. Meus cabelos longos e pretos cobriam meu rosto voltado para o chão. Me encontrava com os olhos aflitos.

— Está tudo… bem? – ele perguntou, com um tom tão delicado que me fez pensar “o que aconteceu com todo o barulho daquele festim?”. Virei-me lentamente, e meus olhos percorreram por todo o seu corpo — vi que a bermuda tinha uma cor de ferrugem de arame — até que puderam ver mais de perto aqueles lábios pequenos e rosados, depois subindo até seus olhos. E como eles brilhavam, lembrei-me de todas as estrelas que brilhavam naquele momento no breu acima.

Fiquei mais um tempo olhando fixamente para o seu rosto, que estava pálido — não sei se por natureza. Olhei seus cabelos pretos ondulados e bem penteados para o lado esquerdo. E, finalmente, pisquei uma… duas… várias vezes, enquanto procurava por alguma coisa inexistente no chão, e respondi balançando a cabeça exageradamente:

— Tô! Tô… bem! – puxei uma mecha para trás da orelha, e senti que tinha corado novamente.

— O milho! Tá… – sem entender, eu apenas confirmei.

— Tá queimando! – ele disse.

— Hã? – pensei que estivesse falando da fogueira e olhei para lá, mas ele apontou para o fogareiro ao meu lado, dizendo:

— O MILHO TÁ QUEIMANDO!!! – e deu um tapa na espiga, fazendo com que ela fosse parar no meio do arraial, e Calango, prontamente, jogou terra em cima para apagar as chamas antes que alguém se queimasse. E resmungou: — Que diabo!

Eu coloquei a mão na boca, assustada e morrendo de vergonha com aquela situação. Várias pessoas olharam para mim, enquanto o rapaz balançava a mão ardendo ainda.

— Me desculpa, moço! – falei, e fui logo recuando. — Sinto muito… desculpa! – e saí correndo com toda a velocidade que pude. Só ouvi ele gritando alguma coisa como “tudo bem, não foi nada demais!”. Porém eu só queria sair dali o mais rápido possível.

E passei depressa pela madrinha, e algo me dizia que ela tinha assistido a cena, assim como quase todos na festa. Ela não disse nada, só foi virando o rosto seguindo minha corrida até que eu passasse pelo portão da fazenda.

— Aninha! Aninha! O que foi que houve? – Zé Leitão gritava. Ele conversava com seu Ramiro mais afastados da festa, longe do barulho que ela causava. — Volta, Aninha! – dizia ele.

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