Uma Prece de Amor – Parte II

Neste mês, aquela escuridão toda que se fazia durante as noites de Santo Antônio do Soares dava lugar a uma claridade intensa que produzia silhuetas dançantes em cada terreno que essa luz alcançava, as sombras das árvores, além das bandeirinhas é claro, dançavam muito com essa festa toda.

— Aonde vamos ficar? – perguntei à madrinha, enquanto passávamos por algumas pessoas que estavam de pé, olhando para a grande fogueira. Era a maior que já haviam construído desde o começo do festival por aqui. Essa festa sempre me faz voltar ao passado, quando eu vinha correr em volta da fogueira com uns poucos amigos que tinha ali, e hoje nem nos falamos direito.

Lembro-me de duas amiguinhas que sempre corriam e brincavam comigo. Eram Carlinha e Zezé. Vivíamos brincando de casinha nas partes mais longínquas da fazenda, íamos ao rio de baixo, banhávamos e brincávamos de lavadeiras lá, e lavávamos as roupinhas das desgastadas e únicas bonecas que tínhamos. Com isso, voltávamos tarde, e algumas vezes eu até apanhava uma surra da madrinha.

— Vou me sentar lá na barraca ali. – disse a madrinha, indo para uma barraca que vendia comidas típicas da festa. Quando eu ia dar o primeiro passo para segui-la, ouvi alguém chamando:

— Aninha?

Era Zezé, que estava sentada mais adiante com seu bebê no colo. Uma enxurrada de lembranças veio à mente quando a vi, lembranças dela e de Carlinha. Rapidamente, vi as bonecas que outrora foram nossas filhas de mentirinha e que nos treinavam para quando chegasse o momento em que assumiríamos esse papel de mulheres adultas, de mães. Mas olhando-a daquele jeito percebi que não tínhamos treinado o suficiente. Toda a nossa infância foi pouco demais para nos preparar para sermos as mulheres que tanto ansiávamos ser: donas de casa, que zelariam o marido e teriam as casas mais limpas e arrumadas. Uma lágrima foi tudo o que respondi, foi o que consegui. Acho que era isso o que a madrinha sentia quando ouvia aquela canção, esse negócio estranho por dentro. Uma saudade, uma vontade de voltar ao passado e viver tudo novamente. Como se uma linha vinda de lá fisgasse meu coração e o puxasse com força para si.

— Oi, Zezé! – disse, ao chegar mais perto dela. Já tinha enxugado e disfarçado a lágrima que caíra sem que eu percebesse. — Como tá o pequeno José?

— Está bem! Só na semana passada que ele tava com gripe, mas já tá melhorzinho. – ela o olhava com um carinho absurdo. Eu podia ver o desgaste em sua expressão, em suas roupas um pouco amarrotadas e no cabelo preso por apenas uma liga roxa que já estava toda esticada, alguns fios aos montes se erguiam por causa do longo tempo em que não eram tratados.

Carlinha era a mais encrenqueira, e quando elas brigavam chamava Zezé de cabelo de bucha. Ela também sempre nos convidava para irmos até a cerca que limitava a fazenda de seu Ramiro. Até me lembro de um ano que apareceu um menino lá, tinha mais ou menos a mesma idade que Carlinha, ela era um ano mais velha que eu e Zezé. O rapaz não gostava de nós, sempre que aparecíamos na cerca ele fazia uma cara feia e entrava. Mas acho que era porque Carlinha sempre implicava com ele, e o chamava de tripa seca e osguinha.

— Ah! Tadinho! – peguei sua mãozinha, ele sorriu. — Festa bonita, né? – perguntei, com os olhos fixos na fogueira.

— Não como antigamente, mas é. – disse ela, também encarando as chamas. Algumas bandeirinhas farfalhavam sempre que uma rajada de vento passava por elas e se jogava contra o fogo. Não falamos mais nada. Um som tocava, mas não impediu o doído silêncio que se seguiu.

Então, o que eu já imaginava aconteceu. Voltei meu olhar para ela e percebi as lágrimas refletindo o encarnado que emanava do fogaréu. Depois de tantos anos, ainda éramos atormentadas pelos mesmos fantasmas do passado. Minha resistência foi vã, não aguentei e chorei. Aquele festim era uma nostalgia só, e nos levava ao momento o qual tínhamos decidido esquecer para sempre.

— Calango tá todo faceiro. – disse ela, rompendo os anos todos e nos trazendo de volta para ali.

— É…! – eu enxugava as lágrimas, e nenhuma de nós duas tinha coragem de voltar a se encarar, com medo de voltar aquele rio, àquela… cena.

— Já pediu pra Santo Antônio? – ela finalmente me olhou.

— O quê?

— Como o quê, mulher? O casamento. – pude ver de relance o riso que se formou em seu rosto. Um riso meio forçado e triste, mas era um riso de quem só queria mudar de assunto.

— Ah! Eu falei com Deus outro dia, o final dele é bem mais feliz. Eu não tenho pressa não.

— Égua! Tu já é uma mulher formada. Vai viver a vida toda trabalhando pra Zé Leitão? Ouvi dizer que ele é caidinho por ti. – então vi um riso mais sincero em sua boca.

— Não, mana! Isso é coisa do povo, ele é como um pai pra mim. Tenho certeza que ele acha o mesmo. – falei sorrindo também.

Outro silêncio nos encontrou, levando os risos e nos entregando a várias respirações ofegantes, porém sutis. Vi a madrinha sorrindo muito lá longe com a dona Raimunda, a que cuidou dos preparativos da festa. Então senti vontade de interromper nossa pausa:

— Seu Ramiro veio pela primeira vez participar do festejo aqui em Santo Antônio do Soares.

—Humrum! Com a mulher e o filho!

— Filho? Não sabia que ele tinha filho. – foi quando me dei conta de que já havia mais pessoas no arraial.

Ela ia responder, mas o pequeno José começou a chorar, e ela parou. Logo depois disse que ia lá dentro da casa pegar uma fralda. Eu assenti, e disse que iria aonde a madrinha.

Enquanto andava, cruzando de um lado ao outro aquele ambiente, vi algumas crianças correndo ali, uns adultos dançando a música junina, e a fogueira sempre viva. Os gritos foram se misturando com o som e o queimar das madeiras. No meio do arraial olhei as faíscas subindo alto e se confundindo com os brilhos que vinham do céu escuro. Voltei lentamente em oposição ao subir das faíscas, e do outro lado, quase no escuro o vi. As labaredas iam alto e depois abaixavam, dando para ver o quanto seus olhos estavam grudados em mim.

Caminhei lentamente sem parar de olhar, como se aqueles poucos segundos tivessem se convertido em longos minutos. A claridade da fogueira se chocava contra seus pequenos lábios e contra aquele rosto perfeito. Então, senti um disparo no peito, e comecei a ouvir batimentos estridentes.

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