Uma Prece de Amor – Parte I

Há no céu um encanto que não me deixa parar de admirá-lo. Ainda mais quando são noites juninas, quando as estrelas se animam e não são ameaçadas pelas chuvas. Fico contando cada uma delas e vendo como vão caminhando lentamente até outro local do céu escuro. Parece que elas querem me dizer alguma coisa sobre aquela imensidão do universo. Quando eu era mais nova tentava formar com cada uma delas o rosto de meus pais, mas não se convertiam em imagem alguma, eu não conseguia lembrar deles.

— Aninha! Entra logo, tá tarde. – a madrinha gritou lá de dentro da casa. Eu conseguia ouvir o som de uma música que todas as noites a madrinha ouvia naquele mesmo horário no rádio. Uma sinfonia triste, que a fazia lembrar de quando era mais jovem. Sempre que eu a ouvia, me via em um grande salão com vários casais, olhando para todos os lados enquanto os casais lentamente se moviam, para lá e para cá. Até eu, tão jovem, ia longe no pensamento só de ouvir aquela cantata.

A madrinha me disse que ela se sentia mais perto de Deus quando ouvia a canção, e realmente era um som muito bonito pra se pensar nEle. Eu até fazia algumas preces ali fora, pedindo que me desse um futuro bom.

— Tô ino, madrinha!

Levantei-me rapidamente da fria relva que me sustentava como uma rede confortável. A escuridão corria longe pelas matas, só não me tocava porque uma lamparina clareava-me desde a porta até um bocado de terra em frente à casa, e, mais adiante, à relva sobre a qual eu me deitava.

— Que mania de se deitar no chão, menina. – disse a madrinha quando adentrei a porta da nossa velha casinha. Ela apagava as brasas do fogão, as que nossa janta tinha deixado acesas, e já foi logo se preparando para dormir. Percebi que também passava a mão em seu rosto a fim de esconder as lágrimas que havia derramado ao som de Bach.

— Tava olhano o céu. Já viu, madrinha?

— Ah, minha filha, ele é mais velho que esta sua madrinha. Numa escuridão dessa na fazenda, como não ver? – respondeu, enquanto abaixava a sua rede.

Minha madrinha é a única pessoa que posso chamar de família, ela cuida de mim desde que eu era muito pequena. Eu não sei muito da história dos meus pais porque ela nunca quis me contar, disse que esperaria que eu tivesse a idade certa. Já fiz dezoito anos, mas até agora, nada.

Nossas noites eram sempre do mesmo jeito, depois de vir da sede de Zé leitão, onde passávamos o dia todo, fazíamos a janta e eu saía para tomar um ar, enquanto ela ficava ouvindo o rádio velho, justamente numa sintonia onde a nostalgia exalava para além dos aparelhos. Depois eu entrava e nos deitávamos em nossas redes até que pegássemos no sono e fôssemos consumidas por ele.

Ao longe se escutava o cantar do galo, e o dia vinha se jogando sobre as matas da fazenda e sobre a comunidade. Quando acordei, a madrinha já estava de pé e me aguardava para irmos pra casa de Zé Leitão preparar o café da manhã para ele e sua mãe.

Nossa velha casinha fica atrás da casa sede da fazenda, a casa que o pai de Zé Leitão deixou pra ele e para a viúva Zuleide que já não ia bem de saúde agora. Vivem lá, também, seu sobrinho Calango e a sua irmã Carminha, mãe de Calango.

— Bom dia, seu Zé! No cedo por aqui? – eu passava próximo a uma cerca onde os patos ficavam, enquanto ele colocava a sela no cavalo.

— Aninha! Sonhou com o Zé hoje?

Ele até que me tratava bem, às vezes até me dava presentes. Logo para mim, uma desengonçada que nem roupas tem, algumas das que tenho já se ornam de costuras. Hoje vesti uma blusa cor de azul fraquinho, com rendas nas curtas mangas, na parte inferior e na gola — até que é bonitinha —, é minha preferida. Vestia também uma saia jeans com quase um palmo acima do joelho. Mas, aos olhos de Zé, sou a garota mais linda da comunidade, e sempre que pode me dá um mimo. Já percebi que a madrinha nunca fica feliz com isso, já perguntei, mas ela diz que é só coisa da minha cabeça desmiolada.

— Égua! Eu não… não sinhô! – ele sorriu, e meus pés caminhavam agora mais rápido para a sede da fazenda.

— Tome um café, seu José. Tamo ino fazer! – falou a madrinha, que caminhava ao meu lado.

— Tomo depois, Irene. Vou lá pra baixo agora!

Deu um impulso com a perna direita e se jogou sobre o cavalo, depois saiu levantando poeira pelas porteiras da fazenda. Ele já passava dos quarenta, mas não aparentava tanta velhice, tinha os cabelos pretos com uma franja sempre caindo sobre a testa e media um e sessenta, no máximo, de altura. Agora a barriga insistia em se mostrar, mas antes não a tinha e era bem sarado, porém ele não se importa com isso agora.

Mais tarde, quando já se acabava a manhã, saí para estender roupas lá fora e me deparei com altas gargalhadas.

— Vende muito, né? – disse o Zé.

— Muito! Mas hoje não vou levar tanta saca, porque não volto pra cidade. Tenho que dar mais atenção para Amaro. Trouxe pra cá porque tava indo pruns caminhos da bebedeira, aí a mãe dele veio conversar comigo, dizendo que ele precisava era de mais atenção.

— Entendo! É lacuera dela, essa juventude precisa é de pinga mesmo. – disse Zé, e todos caíram, novamente, numa gargalhada.

— Mas qual era a sua preocupação, meu amigo Ramiro? – perguntou Zé Leitão, amarrando a corda do seu cavalo à cerca.

— Esse novo governo. Tô vendo que terei de tomar outras medidas, e se continuar como tá, medidas extremas. – apenas um silêncio se seguiu.

Zé Leitão havia retornado lá de baixo, e vinha acompanhado por dois senhores, um deles era o dono da fazenda ao lado da dele, uma fazenda bem grande e bonita, mas sem criações ou fazedores de farinha. Eles foram passando direto para a casa do forno, onde Calango já estava mexendo a farinha.

José Ramiro comprava farinha de Zé Leitão há anos, era o seu cliente mais adorado. E sempre que Ramiro vinha por aqui, meu chefe tentava vender o maior número de sacas.

— Aninha, hoje começa o arraiá. – ele disse, ao voltar da casa do forno. — Calango disse que tu não ia. É verdade?

— Ah, seu Zé. Num sei… não queria não!

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