O Conto do Touro

Era uma noite densa e silenciosa como todas as outras. A única diferença era que chovia muito nesta.

Não era de costume chover tanto ali, mas quando o “toró” caía, era de arrancar os tetos de palha. Com tempestades assim, era necessário que se construísse casas firmes, até porque estavam firmadas na areia. A nossa nunca havia precisado de reparo até essa noite. Pequena, com um quarto, uma cozinha e uma sala que mal cabia cinco pessoas dentro; mas firme.

Meu irmão e eu dormíamos em nossas pequenas redes, já que não tínhamos o luxo de camas, apenas os mais velhos tinham. Nós, pequenos, respeitávamos que fosse assim. Foi, então, que, no meio da noite, fomos acordados com alguns barulhos, era papai e mamãe que estavam num alvoroço só, por causa de um gemido estranho que vinha lá de fora da casa. Era de palha seca, segurança não havia. Qualquer um podia meter uma faca, por mais pequena que fosse, e arrancar palha por palha.

Nós ficamos com medo, mas meu pai pediu que ficássemos calmos. O gemido era estranho e metia medo. Como alguém que estava com uma dor muito forte e se encostou na parede para descansar. Papai disse que devia ser alguém “chilado”, como ele dizia, mas logo descartamos a possibilidade. A voz era tão grave que atravessava o barulho do temporal que caía lá fora, e se chocava contra nossos tímpanos, causando pavor.

Meu pai começou a bater no chão com um pedaço de madeira, querendo assustá-lo. Deu certo, a priori. O gemido foi ficando mais fraco, parecia que ele estava indo pra longe, mas foi por pouco tempo. Ele voltou e continuou com aquilo. E a chuva caía forte, sem mudar de ritmo.

Ficamos acordados até que o gemido foi embora. Mamãe nos acalmou e disse que estava tudo bem. Ficou perto até que “pegamos no sono” já bem tarde da noite. Depois que dormimos eles foram dormir também, mas não dormiram com tanta rapidez quanto nós. A preocupação era maior que o sono, e, apesar de não quererem aparentar a nós, eu sabia que tinham medo também.

No outro dia, as mesmas conversas se chocavam umas às outras. Cada um contando a sua versão de como ouviu o gemido. Quase toda a população tinha ouvido o som estranho na noite anterior. Uns contavam de um touro, outros de um homem com corpo de boi, e assim a história ia se repercutindo.

— É o touro encantado de Lençóis. – disse um morador. Ele e outros moradores contaram a história do touro que vivia em baixo das dunas de areia e que às vezes saía durante a noite.

Dizem que a ilha é encantada e que tudo aqui pertence a estes seres místicos, só temos que respeitá-los, assim nada de ruim acontece conosco.

marble surface
Foto por Henry & Co. em Pexels.com
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