A Gárgula

Em frente à Orla morava uma gárgula, junto a três ratos. Não era de boa formosura, talvez porque já resistira muito tempo por ali. Sol e chuva lhe atormentavam todos os dias, mas ela já tinha se acostumado a viver daquela forma.

Ela era, como os ratos diziam, a mais feia de todas as gentes. Tinha a cor de gesso velho e sujo. Tinha as pernas à mostra, e aparência de felino manso. Diferente de qualquer gente, ela tinha asas, mas não voava. E nem os olhos esbugalhados tinha. Era magra, coitada! Delicada, e ficava com as mãos sempre firmes na estrutura que a sustentava.

Os seus três amiguinhos sempre faziam chacota dos seres estranhos que por ali transitavam. Baixos, altos, gordos, magros, riam de todos que passavam, pois todos eram aberrações para eles.

Um dia, enquanto eles dormiam, passou por ali um rapaz humano e ficou a admirá-la. Ele era magro e só se cobria na parte inferior. De repente, surgiu a gente dele por ali, vieram caminhando até se depararem com ele olhando fixamente para cima. “Tu é doido?!”, foi o que disseram. E um deles lhe jogou uma lata na cabeça. E começaram a fazer chacota dele também. A gárgula se perguntou se eles conheciam a gente dela, que dormiam naquele momento, e ficou tentando responder a si mesma por que eles faziam aquilo. “Será que é porque ele está sujo também?”, pensou ela.

A gente dele atravessou a pista e foi para a passarela da Orla. “Fica, chorão!”, gritavam. Ele ficou ali tentando esconder que chorava, enquanto a gárgula o observava, discretamente. Familiarizou-se com ele, a empatia era irresistível. Porém, algo a mais ascendeu ali.

— Tudo bem?

Ele olhou para todos os lados tentando encontrar quem havia falado com ele.

— Aqui em cima! – ela disse novamente. Ele a viu e logo abaixou a cabeça.

— Ah! Não fale comigo. – disse ele, enquanto passava a mão no rosto.

— O que foi? Me notava há um minuto.

— Não quero que me veja chorar. – e virou-se de costas para ela.

— Então não chore. – respondeu a gárgula. E perguntou: — Quem são?

— Humanos!

— São tão malvados?

— Uma parte, sim. A outra tá começando a ser.

— Eu gosto de tu.

— Não se diz tu, e sim você.

— Mas você não é tu?

Ele hesitou e sorriu. A gárgula já era toda fogo, que só resolvia queimando mais ainda. “Quando o vi senti algo estranho, era confortável e ao mesmo tempo ardia”, disse ela.

O humano se encontrou nela, e até disse que era da gente dela, não da dele. Mas ela logo negou, dizendo que eles eram gente só deles, de nenhum lugar mais. Ele quis subir a ela, mas não podia acordar os ratos, pois ririam dele. Foi embora pra depois voltar.

Voltou. A gárgula o esperava no mesmo lugar, onde a deusa Cípria levou os Lusitanos. Talvez a levara também, e uma arrelia se fazia ali. Conversavam e riam, um compreendia o outro como mais ninguém no mundo. Porém, gente é ruim aqui ou ali, onde quer que vá será assim, porque já faliu o coração da gente.

O humano foi proibido, pela gente dele, de ver a gárgula. Descobriram tudo. Os ratos não só riram como também xingaram os dois e pediram que os demônios levassem suas almas, porque nunca adentrariam a nenhum paraíso. “Isso que é aberração!”, gritavam. A gárgula chorou, mas chorou tanto que, quando chovia, as lágrimas se confundiam com a água da chuva.

De forma deprimente, ela continuou a viver mais um pouco, sem nem poder ver seu amado. Assim, decidiu que, por causa disso, nunca mais queria ter vida, pois a pequena e triste que tinha, roubaram dela.

“Estamos aqui, vivemos aqui, mas nosso amor não vale pra eles”, foram as últimas palavras da gárgula.

E nunca mais se mexeu até hoje.

grayscale representation of a bird statue

Foto por Pixabay em Pexels.com

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