Arreia¹ no Chão

Numa ilha, que dizem ser encantada, onde o vento corre solto sem parar e as areias são alvos tecidos com desenhos de casebres como em tapeçarias, certas anormalidades aconteciam. Ninguém tinha coragem suficiente para ver se era verdade e explicar porque aquele alvoroço acontecia.

Um desses acontecimentos era o de vários gritos que a população escutava durante a noite. A partir das dez da noite ninguém mais circulava pelas ruas, porque todos morriam de medo da mulher que gritava.

Certa vez um menino teve até um infarto porque ouviu os gritos chegando perto e ele estava na rua, acabou morrendo e só foram encontrá-lo no outro dia. Estava morto sobre as areias.

Mas um dia um cearense chegou à ilha e pediu para ficar na casa de dona Joana, uma senhora que tinha uma casa para alugar bem perto de um dos cajueiros. Era por lá que a mulher passava.

— Tudo bem? – disse ele.

— Sim, nós vamo bem aqui.

— Muito bonito o cajueiro. Deu até vontade de comer um cajuzinho.

— É sim! Mas agora não tá no tempo. Só usamo pra outras coisa.

Dona Joana lhe apresentou a casa, disse onde se pegava água para beber e que para banhar havia um poço no quintal. Ele olhou ao fundo e viu um quintal pequeno cercado por achas unidas por um arame. Do lado direito havia uma cintina de palhas, ao chão uma terra diferente, mais amarelada e firme, talvez antes ela tenha sido construída de barro. Dona Joana lhe explicou também da situação, que todas as noites uma mulher saía gritando por toda a ilha, e metia medo em toda a população. Mas o cearense disse a ela que não tinha medo de nada, pois já tinha passado por coisas bem piores.

— Mulher que grita? – perguntou ele.

— Sim! Ela vem de noite, depois das dez.

— E por que ela grita?

— Aí ninguém sabe, menino. Um rapaz até morreu porque viu ela, então toma cuidado. De noitinha já começa te agasalhar.

— Agasalhar? – perguntou ele.

— É! Te apreparar pra dormir. – ela aparentava um medo horripilante.

Seus olhos se arregalavam cada vez que ela falava, como se quisesse meter medo no cearense. Mas era um medo dela mesmo, o qual todos da ilha compartilhavam. Pois aqui as visagens faziam festa, até porque era território delas. A população tinha medo do touro, da troíra, do gigante preto, e todos os outros moradores místicos da ilha.

Quando a noite chegou ele já estava ansioso para ouvir os gritos da mulher morta, mas, assim como qualquer ser humano, sentia um pouco de medo, porém não iria fugir. Jantou rapidamente e recusou-se a ir aos fundos do quintal a esta hora. Havia um silêncio profano, apenas o vento de vez em quando esbarrava contra a casa e contra os galhos do cajueiro.

A hora já tardava quando o cearense foi até a sala e lá ficou à espera da “gritadeira”. Olhou por uma brecha da porta e só conseguiu perceber algumas casas ao longe ora escuras ora clareadas pela luz da Lua.

“Vou ficar atrás da porta para ouvir melhor”, pensou. E assim fez.

O cearense já estava quase desistindo de ficar ali, quando, de repente, ele começou a ouvir uns gritos ao longe. Eram abafados e arrepiantes, parecia de alguém que não abria totalmente a boca para pronunciar as palavras.

“Onde eu arreio?”

“Onde eu arreio?”

Ele tomou coragem e esperou mais um pouco, seus pelos arrepiavam-se todos. Quando ela chegou bem perto, perguntou novamente:

“Onde eu arreio?”

Ele, cheio de coragem, respondeu:

— Arreia no chão!

Ela parou de andar, houve um silêncio estremecedor. Então, ele abriu a porta e a viu.

Ela carregava três crianças mortas, uma de cada lado nos braços e a outra ela carregava nos dentes. Por um momento ela só olhava para o chão —  o cearense a observava — . De repente, ela se mexeu, o moço quase corria neste momento, mas seus pés cravaram naquela areia. A morta abaixou e largou as crianças no chão. Ele, com a voz trêmula e baixa, perguntou:

— Por que vagas?

— Por causa do fado depois da morte! – responde ela.

— O que causou o fado?

— A morte!

— A tua?

— Não!

— De quem então?

— Deles! – apontou para as crianças.

Ele olhou para os pobres no chão, e a fitou novamente.

— O que queres? – a pergunta foi quase involuntária, mas saiu e antes que ele pudesse se arrepender de tê-la feito, a morta respondeu:

— Só quero dar um recado!

— Qual?

— Diga… Sim! Diga para todos. Eu ganhei o fado de gritar e vagar porque em vida fui má. Não queria ter filhos, matei todos que tive antes de sequer crescerem dentro de mim. São estes que eu carrego agora. Pois diga para as mulheres daqui que nunca façam tal coisa senão este será o destino delas também.

Ela pegou os filhos e foi embora, dessa vez não gritava mais.

No outro dia o cearense contou tudo o que aconteceu para dona Joana. Esta convocou toda a população para uma reunião, e o cearense contou-lhes a história. E ainda disse que se caso não acreditassem teriam prova nesta noite: a mulher morta não gritaria.

Não gritou nem naquela noite e em nenhuma outra mais. A ilha ficou sem os gritos, mas as visagens continuaram por ali. Afinal, a ilha é desses seres. Quem manda é eles.

 


¹ Variação do verbo ARRIAR.

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