Estórias de Sala – Conto I

Ao quinto ranger da porta de uma solta maçaneta (depois do assombroso aviso), todos olhavam atentos enquanto a imagem de mais uma decepção aparecia. O alívio era fugaz, ia embora com a mesma intensidade que chegava. Houve gente que quis chorar, outras apenas olharam-se sem conseguirem esconder o sobressalto. Então o barulho de conversas paralelas voltou a tomar conta do ambiente. E naquele momento ninguém mais estava tranquilo com a situação, tudo começava a ficar mais sério do que imaginavam.

Dezenove e quarenta e sete: nada do novo docente chegar à sala. Gabi entrou por último, viu a frénésie com a qual seus colegas se encontravam, e perguntou o que estava acontecendo ali. Era arrepiante ver o rosto de cada um deles emanando um medo harmônico. Disse que não sabia de nada, e percebeu o clima pavoroso que se fez naquela pequena sala de aula universitária.

— Não viu a mensagem no grupo? – sussurrou Antônio, logo que ela se sentou numa das cadeiras da parte inferior, como de costume.

— Nããão! Eu vim correndo pra cá, pensando que tava atrasada! – respondeu.

No meio disso tudo, Ingrid interrompe a todos com seu pronunciamento, tentando apaziguar a situação:

— Gente! Vamos nos acalmar! Eu sei que todos estão tensos, assim como eu. Mas… É… Pode ter sido uma brincadeira apenas. Num sei!

— Não… Acho que ela não brincaria com algo tão sério! – rebateu Luíza. Como são amigas, com certeza a conhece melhor que qualquer um da turma.

Assim, as conversas voltaram a estrugir o local, e o nervosismo tomou conta de todos. O clima era tenso e gélido. Havia chovido a tarde toda e só passou no finzinho dela. Algumas pessoas disseram que o novo professor havia se atrasado por conta da chuva, mas afirmaram que ele viria.

As ligações para o mesmo número começaram a entrelaçarem-se. Ninguém viu Elciane. Onde ela estaria? Essa era a pergunta que todos faziam, seguida de Por que aquela mensagem? Ninguém levou a sério quando viu, era uma mensagem de aviso para que todos tomassem cuidado, pois naquela noite alguém (ou alguns) da sala não iria à aula, e essa pessoa (pessoas) poderia ser tanto suspeita quanto culpada. Depois, um post no status de Elciane os deixou bem mais atormentados. Como se fosse uma contagem, até o momento de a aula começar.

— E o Esmael? – alguém perguntou de repente. Todos olharam em volta.

Uma semana antes do sumiço, os alunos receberam a visita do professor novato. Ele vinha de Belém, disse que não se dava bem ali e resolveu vir pra essa cidadezinha. Conheceram-se, e os alunos o acharam bem simpático, até porque nenhum professor se apresentava com antecedência.

Alguns alunos tomaram a iniciativa de ir ver se aquilo era verídico, os outros, atônitos, ficaram. Antônio foi à frente até a casa dela. Ao chegar lá, a chuva caiu novamente. Os gritos dele ecoaram na sala, pareciam ser barrados antes de chegar dentro da casa — a chuva se intensificou —, o barulho dos pingos no teto e na rua varria o som de sua boca. Ingrid também chamou, mas não houve resposta. Um total de quatro pessoas foi até a casa da vítima. Luíza já chorava muito. Alguém perguntou se havia a possibilidade de o Esmael estar envolvido nisso como sequestrador, mas logo descartaram. Antônio disse que ele não tinha vindo à cidade, porque tinha que cantar em algum lugar da Urumajó.

— EU OUVI ALGUMA COISA! – gritou Ingrid.

— MEEU DEUS! TEM ALGUÉM ALI! – alertou Luíza; um olho apareceu no canto inferior da pivotante. Todos estremeceram. Luíza gritou desesperadamente por Elciane. Sob a chuva, se aglomeravam já bastante pessoas que, curiosos, perguntavam o que estava acontecendo.

Então a coitada começou a gritar lá de dentro, o sequestrador atirou na direção da porta, fazendo com que todos corressem dali. Mas não foram embora, se esconderam ao lado da casa. Enquanto isso, os outros alunos que ficaram na universidade se encheram de coragem e vieram também até onde os outros estavam. Alguém já havia os avisado de que ela e o sequestrador estavam ali.

A polícia chegou pouco depois, alguém da turma ligou e deu o endereço. O professor doutor não teve alternativa, a não ser se entregar. Serial killer, que matava universitárias e depois deixava o corpo pendurado atrás da porta. Mas naquela noite ele havia perdido.

Elciane estava amarrada dentro de seu quarto desde as quinze horas, e chorava muito. O professor foi lá com a desculpa de que tinha que conhecer uma pessoa da turma para tratar como secretária. Ela achou tudo muito estranho de início, porque havia uma líder de turma, mas como ele já tinha ido antes se apresentar, ela permitiu que ele entrasse — era uma estratégia para conhecer os alunos antes. Ele viu que duas pessoas haviam faltado àquela aula, e decidiu fazer com que eles ficassem incriminando um ao outro. As mensagens foram escritas por ele, porém ele pensou que ninguém fosse levar a sério, mas não rolou.

Depois disso, a turma continuou firme! Inclusive, todos se formam ano que vem!

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