Meu Quarto de Martírio

Um negócio por dentro me causa náuseas. No entanto, elas não se converterão em vômito nem escarros nem nada disso. São náuseas doloridas, que espetam meu intestino como se fossem mil agulhas afiadas, que não atravessam, não querem chegar até o outro lado do meu corpo, elas só querem me fazer sangrar e gemer de dor enquanto fico trancado nesse quarto escuro. No peito, o coração é um insistente causador de agonia, sinto como se algo o empurrasse cada vez mais forte contra ele mesmo — espremendo-o. Falta o ar, falta tudo. É uma tristeza que não pode ser compartilhada — uma desgraça que chamamos de consciência.

No quarto ao lado, tudo está silencioso, mas sei que meu pai está sentado sobre um dos lados da cama — sempre que fecho os olhos eu vejo. Sua masculinidade lutando contra a sua terrível vontade de chorar, de gritar ou sabe-se lá contra o que mais. Minha mãe está do outro lado — não tão distante — da cama. Com certeza, chora compulsivamente, mas em silêncio. Fazendo força contra a garganta, força esta que fazemos quando o choro vem com tudo e entala no limite da traqueia, mas aguentamos, porque não queremos desabar. Três conhecidos que têm o mesmo sangue se contendo como desconhecidos vergonhosos.

Todos — os amigos — sempre me viram como uma pessoa alegre, que não aparentava ter nenhum tipo de problema. E, para muitos, esse é o farol de aviso; é o sinal de fumaça ou o S.O.S. em meio à ilha. Enquanto que outros conseguem conter até suas piores dores, sem que ninguém perceba que há algo errado ali; que, por dentro, tudo grita e está uma confusão só. É neste último tipo que me encaixo: um frasquinho airoso contendo um líquido perigoso.

Enquanto luto com meus demônios, penso: “De onde vieram esses desejos contrários? Será que em algum momento alguém resolveu que queria variar um pouco na satisfação de seu prazer carnal?” Se sim, ele é um desgraçado. Como pôde deixar esse legado e fardo para milhares de gerações subsequentes?! Por que ele fez com que eu viesse a sentir isso? Trazendo-me para o lugar mais horrível do mundo: meu quarto de martírio.

Será que alguém pensa que em um belo dia a gente acorda querendo sentir como é ser homossexual e se entregar aos braços de outro homem? Que nós, racionalmente ou voluntariamente, decidimos experimentar o gosto do desprezo familiar, dos olhos tortos dos conservadores, dos insultos e ataques dos homofóbicos? Talvez alguém possa, friamente, dizer “— É só querer mudar!” Aí eu me pergunto se é pura apatia ou realmente falta de conhecimento em relação ao interior do que sente um homossexual. E eu responderia “— Tente não falar de acordo com sua bagagem fonológica empírica, tente não falar em âmbito nacional. Melhor, tente não falar. Tente não exercer os saneamentos básicos da vivência. Tente não ser mais humano, não agir como tal. Tente parar de fazer todas essas necessidades físicas, sociais e psíquicas.” E, quem sabe, esse alguém me responderia “— É impossível! Mas não é a mesma coisa!”. E não é mesmo! É bem pior, porque estas necessidades supracitadas são sanadas facilmente. Mas e quanto a nós? Nunca foi fácil se assumir gay para uma sociedade quase toda conservadora. Não é fácil para nós sanarmos nossa bagagem de desejos reprimidos durante esse tempo todo sem que ninguém venha ter conhecimento disso. Um tornado nunca passa sem deixar rastros. É destruidor.

Minha mãe disse que sempre soube de tudo o que se passava dentro de mim, ou melhor, disse que já sabia desse meu lado. Talvez! Ela nunca soube das noites que chorei, repreendendo-me por não ser “normal” aos olhos deles (meus pais) e nem aos de Deus. Ela nunca soube das vezes que eu quis morrer por achar que era uma aberração, um ser abominável. Ela também nunca teve ciência das inúmeras torturas em forma de orações que eu fazia e que nem sei se realmente saíam do meu quarto.

Não! Ela não sabe de quantas vezes eu quis nascer de novo, tornar às suas entranhas e sair totalmente “curado”. Ela via algo aparente, via o erro em mim, mas nunca a luta interna constante para corrigi-lo. Ninguém viu! É tudo muito abstrato, muito íntimo. Meu. Mas a agonia foi tanta que não se conteve, como todos os ventos perigosos do odre de Ulisses, saiu causando uma enorme tempestade em minha vida. Levando-me para longe da terra firme, deixando-me à deriva.

Todos sofrem com a descoberta de uma imperfeição no percurso de suas vidas perfeitas, com o desvio em suas estradas pavimentadas e sem atalhos visíveis. Os familiares sofrem, os amigos sofrem, os vizinhos até. Mas ninguém nunca, jamais sofrerá mais do que nós, as imperfeições, os desvios das lindas estradas. Nem antes da descoberta e, com certeza, nem depois dela.

Meus pais não sabem que o tanto de lágrimas caladas que fazem um terrível barulho nesse quarto escuro no qual eles estão agora, já chorei mil vezes mais. Nunca ouviram a tempestade que sempre me detonava em meu quarto; das horas e horas de tormento que eu passava em meio ao breu terrível, não do quarto, meu. Quando eu saía, eles não sabiam, mas eu tinha que fingir uma personalidade calma, uma conformidade que não era para ser minha. Um apaziguamento externo.

— O que aconteceu? – perguntou minha mãe há dois dias. Antes eu chorava em meu quarto, com o terrível dilema do “conto ou não conto?”, “os decepciono ou será demais para eles?”.

Uma vez disseram-me que o sentimento entre pessoas do mesmo sexo não passa de uma paixão passageira, não é amor. Eu pensei “— Será que nasci com algum problema?” Porque o que eu sentia, quando mais novo, por mulheres é o mesmo que sinto por homens. É até mais forte. Mas talvez isso não se trate de intensidade, e sim de conceito benéfico, de defesa de posicionamento social. Pois o que já foi implantado em nossa mente por tantos anos é o que vale para eles.

Eu acho estranho o fato de portugueses terem que ditar a vida de índios em sua própria terra; brancos decidirem o que pode ou não ser injúria racial; ricos determinarem o que é melhor para pobres, e héteros diagnosticarem o que sentem ou não os homossexuais. Que besteira! Como eles vão saber o que eu sinto aqui dentro? Como se atrevem a dizer o que eu sinto ou deixo de sentir? É tão estranho e óbvio, que parece ser idiota.

— Eu juro, mãe, que não queria ser uma decepção pra vocês! – eu disse com a voz falhando, as sílabas se atrapalhando nas pronúncias. O som saiu esquisito.

— Fala! – disse ela de cabeça baixa, já imaginando o que seria.

É estranho ter que me afastar do “eu” que estava vivendo antes, é como se eu deixasse de lado minha pele antiga e seca. Como se estivesse me afastando dos princípios e valores aprendidos desde pequeno. Como se a moral se distanciasse de mim a cada segundo, a cada batida do meu pulsante e amedrontado coração. Eu estava com medo, é lógico, e ainda estou. O mundo poderia desabar sobre mim e eu morrer bem ali, tão perto da porta de saída desse escuro.

Algumas vezes pensei que seria mais fácil eu ter que ouvir de meus pais toda aquela briga por conta dessa nova vida que eu estava prestes a viver, outras vezes pensava que não. O fato é que o silêncio deles soa como uma faca perfurando meu peito – dói só de não ouvir. De repente, meu quarto não é mais aconchegante. O quarto daquele garotinho de dez anos, que se embrulhava todo com o lençol com medo do bicho-papão. O quarto já não cintila como antes, já não dá para viver aquelas aventuras inocentes. Agora sinto que nesta aventura o mocinho sou eu, o vilão sou eu e o figurante também sou. Eu sou todos e todos me refletem.

Agora é esperar nascer o amanhã para que eu veja o que o futuro tem para mim. E eu espero que sejam coisas boas. Porque coisa ruim, eu não aguento mais viver. Quero uma vida sem fingir e sem fugir. Uma vida só minha, a qual eu posso compartilhar com quem eu quiser, sem me preocupar em esconder sentimentos, com medo de ser disciplinado. Quero ser “eu”, o “eu” que sempre esteve subjugado por um “eu” fingido e sofrido. Na verdade, até aqui todos os meus “eus” foram sofridos, e agora eu espero o mínimo da felicidade.

Entendam! Eu não sinto uma escolha flexível, sinto aquela coisa enlouquecedora que todos sentem quando se apaixonam. Eu não decidi, apenas senti.

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Foto por Steve Johnson em Pexels.com

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