Sociedade de Bichos

Em um dia qualquer, os bichos estavam fazendo o que geralmente fazem cotidianamente. Uns pássaros cantavam; umas mães traziam comida em seus bicos para os filhotes; macacos saltavam de galho em galho, atrás de comida; um coelho entrava e saía de sua toca, sempre com algo na boca; gansos passeavam e mergulhavam sobre o lago; e uma anta assobiava alto, querendo chamar atenção.

Naquela floresta até as folhas diziam algo com o seu farfalhar, logo que havia acabado de cair uma chuva intensa de matar de frio, por ali.

— Bom dia, dona macaca! – guinchou o coelho.

— Oi, coelho. Bom dia! Como vai? – guinchou ela.

— Vou bem!

Neste momento, surge a cadela trazendo um de seus filhotinhos pendurado no dente. Cansada e com muita sede, ela põe o filhote no chão e vai ao lago beber água. Sem perceber os cochichos feitos pelos gansos, a cadela bebe água e volta sem cumprimentá-los.

— Ela só vive estressada! – grasnou um ganso.

— Má educação é aí mesmo. Ela era bem mais legal antes de parir! – grasnou o outro.

— Tudo bom, cadela? – guinchou dona macaca.

— Oi. Só estou um pouco cansada de carregar esse pequeno pra todo lado, atrás de um remédio pra essa gripe! – late ela.

— Onde está seu marido?

— O cachorro chegou a pouco do trabalho e está descansando! – explica a cadela.

— Coitado! E por que a senhora está tão estressada? – guinchou o coelho.

— Todo dia tenho que cuidar da casa e dos filhotes, não tenho descanso!

— Mas é isso que uma cadela dona de casa faz! – guinchou a dona macaca.

— É! Não adianta reclamar! – grasnou um ganso.

A cadela pegou seu filhote e foi embora toda triste. Às vezes se arrependia por ter escolhido uma profissão tão cansativa e que lhe roubava todo o tempo. Tinha que cuidar da casa toda, fazer comida para o cão e os filhos, lavar, passar e fazer tudo isso cuidando dos filhotes ao mesmo tempo.

Passaram-se alguns dias e a mamãe cadela não foi mais por aquelas bandas. Os bichos estavam encucados com o sumiço da cadela e começaram a cochichar sobre aquilo, mas a cadela não apareceu. No quarto dia eles avistaram o senhor cachorro trazendo o mesmo filhote nos dentes. Todos se compadeceram da situação, vendo o cachorro todo irritado e cansado, prontamente quiseram ajudá-lo.

— Seu cachorro, deixe eu te ajudar com isso. O senhor deve estar cansado do trabalho! – guinchou a dona macaca para ele.

— O que aconteceu com a dona cadela? – grasnou um ganso.

— Pegou com uma gripe muito horrível, e está deitada! – explicou o cão.

— E ela não pode cuidar deles assim mesmo? – assobiou a anta.

— Até ontem, sim. Mas hoje tive que trazê-lo para procurar remédio. Ela se levanta de vez em quando pra cuidar da casa e ver os outros filhotes!

— Ah! Tomara que ela se recupere logo para cuidar deles, e te livrar desse encargo! – guinchou o coelho.

— Pode deixar que levo esse pequeno até sua casa! – guinchou um macaco.

— Obrigado! – latiu o cão.

Assim, todos voltaram a fazer suas obrigações e o macaco foi feliz da vida ajudar o cachorro com sua tarefa de carregar o cãozinho. Com isso, o cão pai pôde descansar um pouco.

Uma sociedade que defende que a criação dos filhotes e os afazeres da casa é um papel unicamente da mãe é, na verdade, uma mata de bichos onde os valores “dele” são exaltados e os “dela” são rebaixados inconscientemente.

daylight environment forest green
Foto por Pixabay em Pexels.com

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