Fita K7

Quando estou triste, qualquer lágrima vira enxurrada. Minhas glândulas lacrimais viram reservatórios rompidos, sem qualquer barragem que vá segurar a força das águas; vira um incômodo nos olhos, e vai alagando cada parte destes pequenos membros de dor, empurrando com força as pálpebras, porque elas não dão conta dessa agonia toda que quer, violentamente, sair.

É quando eu estou com este horrível sentimento que a alma se dilata, e dá acesso a todo tipo de pensamento. Quem dera fosse todo tipo mesmo. Eles são a pior parte de tudo. Pois pensar é, incontrolavelmente, lembrar. E o lembrar nada mais é do que a fonte de toda a tristeza; de toda a agonia.

Sinto um nó na garganta que hora ou outra me tira a respiração, levando-me à loucura — a confusão de pensamentos. E aí, já era! Se só o lembrar já gera uma dor mortífera, imagine então uma confusão de pensamentos. É atordoador. É de despedaçar-se inteiramente em fragmentos que nunca poderão ser juntados novamente. É curvar-se aniquiladamente ante à pior das forcas ou uma guilhotina que não vai cortar a dor; entregando-se ao anjo beijador que gosta de levar-nos de nós para um longe nunca retornado.

Aí vem a trilha sonora. Parece que a minha tristeza tem sua música preferida, e se encaixa perfeitamente, como um fundo melancólico e derramante. Ela é uma das piores criadoras de angústia. É só pôr a fita para rodar que logo se amontoam nós, lágrimas, apertos, uma sensação desesperadora e uma terrível dor. Dor que parece não doer, mas dói. Corrói. Causa um imenso vazio por dentro. Como se o vazio estivesse tão cheio de nada que rompe todas as paredes do coração. E quanto mais a fita roda, mais os pensamentos se espremem e sufocam-se. É horrível! Parece até que o som entra pelos ouvidos e alcança o fundo, bem no fundo do peito. Onde o coração é mais frágil. Bem no ponto fraco de mim. Onde a alma se desmancha, e se espalha com o som, com as dores, com as lágrimas. Tudo junto. Formando uma poeira de nada agarrada ao tudo: uma inexistente poeira com forma de gente que existe.

É quando estou triste que a imaginação se torna fértil, e vai criando e criando, até que se depare consigo mesma, e perceba que não adianta criar e criar. A tristeza não se vai com a fertilidade da imaginação, muito pelo contrário. Ela me apunhala mais, e se transforma em dejetos de toda essa sensação: lágrimas. Aí só me resta chorar, e ouvir música, sentindo o martírio da tristeza. Aí eu vou-me indo, porque eu sempre perco um pouquinho de mim quando choro. A dor me arrebata, e eu fico ali quietinho, deitado em meus prantos, soluçando a amargura e enclausurado dentro dessa noite escura e tenebrosa que é o “mim mesmo”.

be with nature (1)

2 comentários em “Fita K7

  1. Parabéns pelo texto! Abraços

    Curtido por 1 pessoa

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