Féminina! Fé, Mulher!/Parte II

Como lidar com aquele vazio? Não me pergunte. Eu chorei descontroladamente naquele bar. Seu Antônio veio me abraçar, só para me aliviar mais. No entanto, eu sabia que logo estaria sozinha, sem ele também.

Cheguei em casa totalmente esgotada. Já havia chorado litros, mas as lágrimas me incomodavam, querendo cair. Foi então que eu lembrei da minha mãe, que me abandonou quando eu tinha apenas cinco anos, e eu fui parar na casa da minha tia, a irmã do meu falecido pai. Eu não queria fazer o mesmo que ela. Como eu poderia abandonar alguém tão incapaz de se proteger? Como? Iria fazê-la passar por tudo o que passei? Não! Eu estava ali. Abandonada por todos, e pela vida.

Então decidi fazer a única coisa que poderia naquele momento. Não tinha como. Dali em diante, seria bem mais difícil para mim. Não queria que a pobre criança sofresse como eu, naquele momento. Eu não tinha nada a dá-la. Com certeza morreríamos de fome. E isso seria cruel demais.

— Alô!? Eu estou preparada! Amanhã bem cedo irei!

Olá, Luíza! Tem alguém que possa vir com você?

— Alguém? Não.

Este é um dos requisitos! – então desliguei o telefone, e pensei em quem poderia me acompanhar. Então tive a ideia de chamá-lo.

No outro dia, em frente ao local, esperei por alguns minutos, até que o avistei de longe. Era a única pessoa que eu tinha naquele momento. Estava só. Sozinha. O cara pelo qual eu me apaixonei não era nada do que dizia. Só foi o homem da minha vida até me engravidar. Depois disso, me deixou com esse fardo todo. Ele foi fraco demais para continuar comigo.

— Estou aqui, filha! Mas, Luíza, queria saber pra quê!

— Eu não posso ter esse filho, seu Antônio. Não posso! – ele arregalou os olhos, e abriu um pouco sua boca, já imaginando porque estava ali. Então pôs a mão em meu ombro, e balançou a cabeça positivamente. Aquilo me deu mais coragem para subir aqueles degraus, e ir me despedir do pobre inocente que não tinha culpa nenhuma. Mas eu não tinha mesmo o que fazer. Não se tratava só de não querer, mas também de não poder.

Seu Antônio ficou aguardando em uma cadeira perto da entrada. E eu entrei para o quarto, enquanto chorava timidamente. Sem controlar, as lágrimas desciam velozmente, e caiam sobre o chão pelo qual eu passava. Depois acordei com uma pequena dor na cabeça, e meio zonza. Estava feito. E, pra falar a verdade, eu estava me sentindo melhor assim. Não teria que abandonar ninguém nessa vida sofrida nem fazer ninguém sofrer comigo.

Saí dali com uma única palavra no pensamento: superação. Superar os traumas do passado para não enfrentar outros futuramente. Dar a volta por cima era quase impossível no meu caso, mas eu tentaria. Talvez alguém me chamaria de monstro por ter feito o que fiz, mas eu só seria um monstro se decidisse ter o bebê, e fadá-lo à triste realidade que me devastava. Não havia perspectiva nenhuma, nem para mim nem para ele. Era um futuro totalmente inconcebível. Salvei-o de ter que nascer em meio àquela confusão toda. Eu não me orgulharia disso, mas também não me arrependeria.

Ah! Antes que eu esqueça, já pode parar de ouvir a música. Os fatos seguintes não carecem dela.

Foi exatamente o que começou a acontecer. Passei alguns dias de fome, tentando conseguir um emprego. Eu chorava. Algumas noites nem conseguia dormir, por causa da dor que havia em meu peito. Aí eu chorava mais. Lembrava-me da minha tia; da força com a qual ela lidava com essa miséria que era a vida. Então passei a lembrar dela todos os dias, e assim, eu ia vivendo um dia de cada vez. A casa já não tinha quase nada, vendi alguns móveis para ter que comer. E já estava cansada de procurar emprego. Até que um dia vi uma placa com uma oferta de emprego. Era para trabalhar em uma casa, como empregada. O salário era péssimo, mas do jeito que eu estava não dava para reclamar. Foi isso que me deu forças para continuar a viver, e foi a partir daí que comecei novamente.

Passei três anos ali. Voltei a estudar, e fui voltando. Eu sentia que os bipes e os batimentos começavam a voltar ao normal. E eu voltava à vida. O destino, aos poucos, me reanimava com alguns xoques. E, então, voltei.

Estudei. Formei. E continuei. Aquela cidade se tornou pequena demais para mim, então saí, e embarquei no jornalismo, como redatora e crítica de algumas colunas. Depois me tornei uma das grandes escritoras da atualidade, e aqui estou eu. Contando da volta por cima que dei. Descrevendo a minha superação, após ter sido escorraçada pela vida. Sou independente, e com toda essa independência é que seguirei forte, como minha querida tia Elza ensinou-me, sem querer.

Foi por isso que eu disse que não somos tão frágeis assim. Não vim dar forças ao paradigma de herói masculino e à desgraça feminina, vim para quebrá-lo. Uma mulher, assim como um homem, pode passar por momentos aterrorizantes e, em algum momento, recomeçar. Pode sim! Quem disse que não? Somos mais do que as histórias contam. Suportei momentos horríveis, que pareciam não ter fim. Mas venci. Agora que sou bem sucedida, não posso deixar que me chamem de fraca. Pois, para passar o que passe, era necessário ser forte. Mas não só ser forte. Ser humano. Ou melhor, ser um humano forte. Não nomeei o personagem que me abandonou porque penso que ele exista em todos os lugares, mas com nome deferente. Mas consegue sim. Afinal, quantas Luízas não existem por aí, vencendo todos os dias com a força dos próprios braços.

Me casei, e tenho duas filhas maravilhosas. Isso é ser fraca?

close up photo of a woman in between woods
Foto por Gui Motta em Pexels.com
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