Féminina! “Morte” e Vida de Luíza/Parte I

Não é de hoje que somos julgadas e chamadas de fracas. Antigamente, mulher era conceituada como “sexo frágil”, e sinônimo da delicadeza. Calma lá! Desde quando a fragilidade resiste a fortes pressões? Nunca! Ou rebenta ou quebra. Mas nós não. E se ainda duvida, vou lhe contar uma breve história. Que, na verdade, é a minha.

Antes de tudo, gostaria de pedir, caro leitor, que procurasse a música Sorrow de Sleeping At Last. Se puder, baixe-a, mas não ouça ainda. Em algum momento pela história ela será, naturalmente, necessária. Espere o comando.

Com doze anos, pensei que estava morrendo ao acordar e ver que havia sangue jorrando de mim. Senti um golpear no peito, e corri até o quarto da minha tia. Ela me disse que era normal, e que a partir daquele momento eu estava me tornando mulher. E foi daí que comecei a me sentir e comportar como tal.

— Tia, por que eu tenho que vestir calcinha? E blusa? E saia? Por quê? – perguntei à ela quando eu tinha nove anos. Com doze, já era adulta.

— O quê? Ficou louca, garota? Não pergunte “por quê”, só vista!

Me chamo Luíza, e sempre fui assim. Curiosa. É! Acho que é essa a palavra. Curiosa! Mas minha curiosidade quase sempre fez tia Elza me pôr de castigo. E eu queria entender por que ele existia. Não tinha lógica. Só parecia ser uma forma que ela achava pra me deixar longe, enquanto se fartava na bebida. Sim. Ela era alcoólatra, e por conta disso morreu longo após eu ter completado meus dezoito anos.

Lembro que ela era a mulher mais forte que já conheci. Sempre foi um exemplo de como lidar com os desastres que se enfrenta pela vida. Eu a amava, apesar de ser dura comigo, me pôr quase sempre de castigo e beber tanto, a ponto de passar dias longe de casa, enquanto eu tinha que me virar para sobreviver. Eu não tinha mais ninguém, só ela. Por isso fazia de tudo para que não descobrissem que ela me deixava sozinha em casa. Se já era difícil com ela, longe seria mais ainda.

Também lembro que ela tinha um namorado que arranjou após uns três anos da morte do marido. Depois de um tempo de namoro, ele inventou de querer bater nela. Bom, só posso dizer que ele foi embora no mesmo instante com vários hematomas. Ah! Minha tia era o máximo. Mas morreu de tanto beber. E eu fiquei com sua casa, e todo o resto. No entanto, estava sozinha. Terminei o ensino médio um ano antes da morte dela, e não quis mais nada. Só consegui um emprego num bar aqui por perto, isso porque minha tia era cliente vip de lá. O que eu ganhava lá era pouco demais, mas era o único trabalho que eu tinha conseguido, e que conseguiria por aqui.

Um dia, quando estava no bar, um rapaz se aproximou do balcão, e pediu uma bebida. Começou a me elogiar e dizer que uma moça bonita como eu não merecia estar ali. Daí ele começou a frequentar o bar todos os dias.

— Como você se chama? – ele perguntou.

— Luíza! – respondi.

— Você sabia que sou o homem da sua vida? – ele falou, com a mão no queixo. E fazendo um olhar que me arrebatou completamente.

Eu não costumava me apaixonar, mas aquele rapaz era diferente de qualquer um que eu já havia conhecido, apesar de eu nunca ter namorado antes. Ele era o homem mais fofo que já vi. Me levava flores todos os dias, no trabalho. E, mesmo com todas as perdas, parece que a vida estava começando a sorrir para mim. Com certeza, eu agarraria esse sorriso com todas as minhas forças. Afinal, acho que a vida não seria tão dura comigo com foi com tia Elza. Olhem só! Eu começava a dar certo com ele.

Aquele cara era o amor da minha vida, eu sabia disso. E ele, realmente, estava certo quando me disse isso no bar. Eu acreditei com tanta força que o meu coração virou cúmplice disso, ou fui eu quem virei cúmplice dele? Não sei. Só sei que ele fez eu sentir o que nunca tinha sentido. Eu era pequena demais para aquilo tudo, todo aquele amor. Eu olhava para ele e podia ver toda a minha vida em seu olhar. Era a ternura em pessoa.

No dia do meu aniversário ele preparou uma surpresa para mim, em minha casa. Um jantar a luz de velas, ao som de músicas românticas. Foi uma noite linda. Após o jantar ele me deu um beijo demorado, e tão cheio de sentimento. Pude sentir cada pelo do meu corpo se esticarem todos, e sentia várias correntes elétricas percorrem por mim. Era hora de me entregar. De deitar em seu peito, e ser sua por completo. Despiu-me tanto de roupas quanto daqueles anos de sofrimento que outrora passei. Em cada batida de seu corpo sobre o meu eu ia me livrando daquelas lembranças, das perdas irreparáveis. O movimento das ondas se quebrando na rebentação me lavavam de todas as porcarias que se amontoaram em mim. Era tanto prazer, que eu nem conseguia sentir-me. Parecia ter sido abduzida para ele, e me perdido em seu corpo suado, depois me achei em uma explosão de fogos que eu não sabia de onde vinham. Então, estava feito. Aquela foi a melhor noite de toda a minha vida.

Peço que, agora, você comece ouvir a música Sorrow, se quiser saborear essa história com um melhor gosto emotivo!

Passaram-se dois meses. O bar estava fechando, porque o dono, o seu Antônio, ia viajar para longe. Fazer negócios ali estava difícil. Por isso ele decidiu ir embora. Lembrei que eu tinha a quem recorrer. Ele havia me dito que eu não precisava estar naquele ambiente; que eu não tinha que trabalhar tanto até tarde da noite. Ele era o amor da minha vida, e ficaria tão feliz. Nós passaríamos mais tempo juntos. Mas antes de sair do bar, eu senti uma tontura e caí ali. Acordei num hospital.

— Já sentiu enjoo esses dias? – a enfermeira perguntou.

— Não!

— Já sabe que está grávida, né?

— Grávida?

Naquele momento eu não sabia o que estava sentindo. Não estava preparada para ser mãe. Não tão cedo. Além do mais, tinha acabado de perder o emprego. Então saí dali, e cheguei no bar para conversar com o seu Antônio, e perguntar se tinha notícias do meu amado.

— Ele passou aqui bem cedo, e deixou isto pra você. Eu o avisei que você estava no hospital, e que talvez estivesse grávida. – era uma carta, ou melhor, um rabisco num pedaço de papel.

— Obrigado, seu Antônio!

Li, e logo uma lágrima, que parecia pesar uma tonelada, saiu de um dos meus olhos e correu pelo meu rosto. Em seguida, vieram todas as outras atrás. O fim da carta dizia:

“Desculpa, mas eu não posso ser pai agora. Adeus, Luíza!”

Bom… esse foi só o início da minha história. Se quiseres saber mais, passe para o outro texto. E estarei contando o que acontecerá comigo.

close up photo of a woman in between woods
Foto por Gui Motta em Pexels.com
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