Perspectiva

Uma vez me perguntaram por que eu insistia em acreditar que palavras podem mudar percursos e salvar a vida de alguém. Era um jovem de mais ou menos dezessete anos. Menos da metade era o que ele sabia da vida. No entanto, sua pergunta não soou como sarcasmo. Ele realmente estava interessado em saber porque eu achava aquilo. Então, convidei-o para se sentar ao meu lado.

Um banco de praça em plena tarde de quinta. Era o momento em que o Sol se banhava nas profundezas do horizonte, e refratava raios magníficos pelo céu. As nuvens já anunciavam sua partida, pois recebiam seu presente de despedida como todos os dias em que a chuva não vinha estragar essa façanha. Elas se deleitam com todos os tons de laranja que podem agarrar no ar; se vestem com eles, e ficam parecidas com pinturas esplêndidas que, na verdade, não são pintadas, mas formadas. Eu adoro toda vez que chega este momento do dia, pois é quando mais me sinto vivo, e respiro um poético ar literalmente vivificante.

O rapaz me olhava com uma expressão calma e com um terno fisgar de quem esperava uma resposta, mas era como se já soubesse que ela seria sanadora. Olhei uma árvore próxima a nós. E perguntei:

– Saberia descrever aquela árvore para mim?

– Claro! É uma pequena árvore de folhas amarelas e tronco torto, no meio de tantas outras que estão por aqui pela praça.

– Não! É uma rústica imagem, a qual se forma por diversos fragmentos lançados ao chão. Fragmentos estes que já foram lindos adornos em cima e agora fazem seu papel de embelezar a relva desgastada. Galhos deformes, que tornam a caminhada dos pequenos andarilhos ainda mais labiríntica. Um mágico ar sopra sobre as folhas amareladas pelo empírico crescimento, e tanto já se alimentaram da luz solar. Elas lembram os tons formosos que encantam o fim da tarde. A imagem é terrosa, e por ser terrosa, torna o ambiente calmo e afável para quem a observa não só com os olhos fadigados, mas com o olhar que torna o de fora lindo para dentro.

– Que lindo! – ele disse, com os olhos mais arregalados que antes, como se estivesse vendo exatamente o que estava sendo descrito.

– Uma vez (eu continuei), entrei em depressão por causa de tantas dificuldades que passava. Então fui o mais longe de casa que pude, e encontrei uma ponte alta onde consegui analisar uma queda fatal. Estando sobre a ponte, preparado para subir mais um pouco, e me jogar na escuridão, percebi que vinha uma folha sendo carregada pelo vento e parou no choque contra minha perna direita.

Dizia:

“É fato que muitas das vezes nos preocupamos mais com as dificuldades que com a própria vida em si. Nós acordamos para ir trabalhar, e depois voltamos para casa para começar tudo de novo, querendo que os problemas sejam pagados. Eu acredito que a vida é bem mais que estar cheio de ocupações, que às vezes só acabam em frustrações. É bem mais que ficar abatido por algo não ter dado certo. Tudo só depende do olhar com o qual percebemos a vida. Se a vemos como uma estrada torta e cheia de dificuldades, ela será assim. Mas se a olharmos como uma árvore esplêndida, que, mesmo com os galhos defeituosos, consegue ser encantadora, aí sim, a nossa vida será diferente. Basta olhar certos para coisas erradas. Então não se queixe! Vá onde aquilo deu errado, e tente novamente. Se não der aqui, tente ali. Seja multifuncional, e tente quantas vezes forem preciso. Só não olhe a vida tão deforme a ponto de perder o encanto por ela, e, enfim, perdê-la.  Tua vida é mais que uma percepção defeituosa. Acredite!”

– Eu voltei para casa, e comecei a resolver as pendências. Depois fui fazer o mesmo que aquele garoto, o escritor deste texto escolar que salvou-me. Tornei-me escritor. E hoje os meus textos fazem com que os outros continuem a escrever sua vida. Sou um doador de resiliência. Um proporcionador de novas chances e recomeços. Eu pinto as palavras de uma forma que dê um novo olhar para quem antes só enxergava feio. Como fiz com a árvore para você.

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Foto por Pixabay em Pexels.com

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