Golpe de Enxada

Uma criança nunca deveria ser desafiada, pela vida, a explorar grandes responsabilidades. Uma enxada não deveria ser o brinquedo que ela carrega nas tão sofridas mãos, nem a roça sua melhor escola. No entanto, esta é a realidade que me enxergam os olhos, já banhados em lágrimas querendo escorrer. Será esta a vida de todos os inocentes meninos que vivem nos cantos menos prestigiados desta região? Talvez. Uma vez que os casais que vivem nesses lugares geralmente têm muitos filhos, e, assim, há a necessidade de o mais velho se achar no dever de tomar as responsabilidades.

Eu caminhava pela feira, e me deparei com esta cena que me chamou totalmente a atenção. Meu coração quis sair gritando “IGUALDADE, PELO AMOR DE DEUS!”, mas fiquei ali imaginando como eles sobreviviam com tanta precariedade. O vi em frente a uma fruteira, sua mãe acabara de entrar para comprar com o único dinheiro que tinham acabado de receber de algum programa social – quem sabe – algumas frutas para eles. Junto a ela foi a filha do meio que segurava forte a saia da mãe para não se perder no meio de tanta gente, e chorava. Deduzi que fosse de fome. Chorei. Uma lágrima doída saiu dos meus olhos. Como se ela estivesse saindo diretamente do coração que naquele momento estava sendo espremido.

Antes de sua mãe subir à fruteira a ouvi de longe dizer “JP, eu vô comprá fruta, fica vigiano amode o ônibus vim“. Eu via pessoas com pressa andando para todas as direções, carros e motos passavam por ali, e JP parado e apreensivo, esperando que sua mãe chegasse antes do ônibus vir. Ele colocava a cabeça de seu irmão em seu ombro esquerdo, com o intuito de fazê-lo dormir, como se isto resolvesse a inquietação do pequeno em querer comer alguma coisa. Decidi ir até lá, mas antes que eu chegasse, o garoto olhou para um senhor ao seu lado e disse:

– Moço, o sinhô pode me dá um mucadinho? Tô é varado de fome.

– Cadê sua mãe rapaz? – o senhor disse.

– Ela tá lá (apontando a fruteira). Nós num tem o almoço.

Então, ele recebeu um saco plástico transparente com um pouco de suco, e um resto de pastel. Pensei que fosse comer, mas não o fez. Não pensou duas vezes em dar ao irmão que trazia em seu colo. Deu tudo ao pequeno e isso me deixou ainda mais triste.

– Olá? – perguntei. Ele só olhou para mim e baixou a cabeça. Talvez estivesse com medo.

– Ele é seu irmãozinho? – ele balançou a cabeça positivamente.

– Tu tem quantos anos? Tá estudando?

– Tenho doze. Eu vô na escola às vezes, mas tenho que ir pra roça, aí num dá muito.

– Você trabalha na roça? E seu pai?

– Ele já morreu. Foi de cânci.

Era pior ainda. E não se tratava de trabalho forçado, pois sua mãe não conseguia manter a casa sozinha. Pude imaginar o quanto aquela mulher sofria para cuidar dos filhos, JP então vendo aquele esforço todo de sua mãe, começou a trabalhar para ajudá-la. Desde seus nove anos, quando seu pai morreu, ele vem trabalhando de favores lá no interior de onde vem. Não entendi bem o nome do lugarzinho, mas talvez seja Arimbú. Consegui olhar para as mãos do pobre garoto e pude perceber o quanto elas já tinham trabalhado duro. Cheias de calos, e em alguns lugares até em feridas eles tinham se tornado. Ele tinha uma grande ferida na perna, que disse ter sido provocada por um golpe de terçado na roça enquanto fazia seu trabalho. Usava uma sandália já velha, era havaiana azul, mas já não estava mais com uma cor tão viva, além disso ela estava suja em algumas partes por algo que se parecia com lama coberta por piçarra. E olhando para as sandálias, percebi que ele não tinha um dos dedos; era o dedinho do pé esquerdo. “Meus Deus” eu falei baixinho, colocando a mão na boca. Aí perguntei a ele, e ele respondeu que foi outro golpe, mas dessa vez foi com a enxada. Ele chorou demais, disse que aquilo doeu tanto, mas na mesma semana já estava lá novamente, ganhando o sustento para ajudar a pobre mãe. Eu chorei novamente. Ele perdeu um dedo para ajudar a mãe e os irmãos. E ali, bem naquele momento eu perdi minha individualidade e qualquer vestígio de egoísmo que pudesse ter, não dava para reclamar da vida, vendo o que aquele garoto e toda a sua família tinham que enfrentar.

No entanto, quando o perguntei se ele queria deixar aquela vida sofrida, ele disse que não tinha vida sofrida. Que gostava de trabalhar para ajudar a mãe, e que aquela era a vida dele, parecia ser diferente ou sofrido, como eu dizia, porque estávamos sendo formados em lugares e com situações diferentes. E eu achei aquilo mais incrível ainda no garoto, pois parecia ser um homem formado.

Depois a mãe dele veio correndo, dizendo “umbora! umbora! que lá vai o ônibus, minino!”. Então ele saiu correndo com ela, e entraram no ônibus. Enquanto isso, eu fiquei ali refletindo sobre aquela situação. E percebi que escrever sobre ele não muda nada. O único escrito capaz de fazer isso deve ser aquele que parte de uma ordem superior, e que permeia entre os grandes afim de chegar a ser realidade, respeitando suas vontades.

photo of baby on gray wooden board
Foto por Muhammad Moin Ulhaq em Pexels.com
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