O Amor é Cego

Parte IV – Não Sei Ver

Era Ana que tinha ido me ver, já que eu não estava indo à escola. Ela queria entrar para falar comigo, mas minha mãe não a deixava, por causa do que havia acontecido comigo, e Ana tentava explicar que ela não me faria mal algum e queria me ajudar a voltar para a escola. Mas minha mãe não acreditava nisso, ela queria me proteger a todo custo, e não se importava com os outros. No entanto, eu ouvindo tudo aquilo fui até lá para dizer que Ana podia entrar.

– Mãe? É a Ana? Pede para ela entrar, por favor! – eu disse enquanto chegava mais perto.

Antes que minha protetora tentasse dizer algo Ana pediu licença, entrou e veio andando até onde eu estava. Podia ouvir cada um de seus passos, e logo chegou bem próximo e me abraçou, pedindo perdão por não ter vindo antes. Eu sei que a minha visão não funciona, mas os outros sentidos que possuo são suficientes para eu perceber que aquilo não era só amizade, e quando digo isto me refito a ambas as partes, que talvez eu estivesse me apaixonando por alguém que eu só sabia da voz, e eu nunca tinha sentido isso antes. Então eu perguntei se ela queria sair para passear um pouco, pois assim ficaríamos mais a vontade para conversarmos. Ela aceitou, e com isso, chamei Maylon para ir conosco.

– Como você está agora? – ela perguntou, após termos chegado à pracinha que ficava lá perto.

– Estou bem melhor! – falei.

– Como aconteceu? Eu não entendi muita coisa! – ela perguntou novamente, e eu sabia que ela queria entender por que eu estava totalmente transtornado naquele dia.

– É uma longa história, mas vou tentar sintetizar. Em doze de julho meu pai foi fazer uma viagem a trabalho. Mas nunca mais voltou, pelo menos com vida. Eu simplesmente perdi meu herói, pois ainda era adolescente e precisava dele para tudo já que Sandra não tinha tempo para mim. E…

– Sua mãe?

– Sim. Minha mãe, essa mesma que me protege com unhas e dentes. Antes ela trabalhava muito, e não era por querer ficar longe de mim. Era justamente para me dar todo conforto, mas isso me roubava sua atenção, mas meu pai sempre estava por perto. Por isso eu sofri tanto quando o perdi, pois sonhava com ele todos as noites. Daí minha mãe percebeu que tanto trabalho só a afastou de mim, e disse que desde aquela momento ela não perderia mais ninguém. É claro que ela sofreu, mas por não querer me ver do jeito que eu estava a sua única opção era ser forte.

– Mas… desculpe pela pergunta boba, mas como é que acontece isso do sonho? Você nunca viu nada? – ela perguntava o que muita gente tinha vontade de saber, mas nunca perguntavam.

– Boa pergunta. Bom, eu sou sim cego de nascença. Nunca vi nada, e é por isso que eu não posso sonhar com cores ou luz, muito menos imagens. Tudo o que sonho são sensações, sons, sentimentos, cheiros, essas coisas que os outros sentidos me proporcionam. Então quando eu sonhava que estava no carro com meu pai, eu apenas ouvia seus gritos, os barulhos do acidente e sentia os bancos do carro que eu já conhecia. Mas só fui descobrir que era ao acidente que eu era transportado algumas noites depois, no início eu só conseguia explicar um desespero, aí minha mãe fez a suposição de que era com o acidente, e foi comprovado depois quando comecei a visitar a psicóloga.

– Entendi. Então você parecia no escuro, e só ouvia e sentia.

– Quase isso! Eu não sei qual a cor do escuro, e não adianta dizer que é preto porque eu não faço ideia do que seja o preto, não tem como me explicar isso. Então eu não posso dizer que vejo o escuro. Quando você fecha seus olhos, você enxerga o escuro porque seus olhos estão fechados. Eu não enxergo. Como não exergo, não vejo nem um photon se quer de luz, é como se não existisse. É difícil de explicar, e sei que é difícil de entender também.

– É um pouco difícil, mas acho que entendi.

– Vou lhe dar um exemplo. Me dá sua mão. – então ela tocou sua mão na minha, e eu senti uma coisa estranha. Um pouco de nervosismo só por tocar sua mão. Acho que já ouvi falarem que quando a gente se apaixona fica assim, sentindo essas coisas bobas.

– Aponte com seu dedo para algum lugar e depois tente se concentrar nele. Como se quisesse ver com ele. – ela sorriu, como se estivesse pensando que aquilo não fazia sentido algum.

– Não consigo! Só vejo o escuro dos meus olhos fechados.

– É exatamente isso que sinto, mas sem os olhos fechados. Como não há possibilidade alguma de você sentir seu dedo vendo, não há possibilidade de eu ver. Eu não sei como se faz isso.

– Nossa! Eu entendi. Nunca tinha parado para pensar dessa… – de repente ela foi interrompida por outra voz, e eu o ouvi.

– O que você está fazendo? O que eu te falei sobre andar com esse babaca? – eu já sabia quem era. Conhecia aquela voz. Era Carlos, e parecia bravo.

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