O Amor é Cego – Parte III

Pesadelos

Eu já não estava no carro com Carlos e seus amigos babacas. Fui levado a um dos momentos mais felizes que passei com meu pai, antes dele ir embora para sempre. Eu não sei porque, mas podia ouvi-los muito bem. O único problema era não senti-lo, como quando aquele momento aconteceu. Pensei ter desmaiado e sonhado com aquela sensação. De repente, seus risos e gritos alegres se transformaram em gritos pavorosos. Ele chamava meu nome, e eu o respondia com medo. Comecei a chorar e me desesperar naquele momento. E então ouvi um barulho, como se um carro batesse contra outro ou algo parecido. E lembrei do acidente. Meu cérebro havia me transportado para aquele momento, pois ele fez uma ligação entre aquela situação de pânico que eu vivia no carro com os rapazes ao momento mais triste e pavoroso de toda a minha vida.

Depois que meu pai morreu eu não consegui mais dormir direito. Este foi um outro contratempo para o meu atraso escolar. Tinham noites que eu não dormia nada, pois tinha medo de sonhar. Sim. Após o acidente eu passei a sonhar com meu pai dentro do carro pedindo ajuda. Sonhava com o carro se chocando com o outro. Eu podia ouvir, era horrível. Eu aparecia dentro do carro com ele, e podia ouvir o desespero em câmera lenta, em uma repetição contínua dos sons. E eu gritava junto, tentando fazer com que aquele pesadelo parasse, ou até mesmo tentava ajudá-lo a sair dali. Mas era em vão, eu não conseguia. Meu pai morria todas as noites, e eu ia morrendo junto por não conseguir salvá-lo. Então eu acordava chorando e gritando desesperadamente, mas sempre sentia as mãos de minha mãe tentando me acalmar, dizendo que tinha sido só um pesadelo. E isso só parou de acontecer após algumas sessões com uma psicóloga.

– Para! Para! Pai! Não! – eu gritava tentando ajudá-lo. E mais uma vez caia naquele terrível pesadelo de ouvir meu pai morrendo sem poder fazer nada. O homem que me deu coragem para enfrentar a vida sem vê-la, lutando contra todo tipo de dificuldade que surgisse; quem me chamava sempre de pequeno falcão para causar em mim a determinação que existe na ave, e sempre me fazia enxergar melhor que os outros, os quais nasceram vendo. E então, de repente, eu comecei a ouvir novamente a voz de Ana também tentando me acalmar, mas eu chorava descontroladamente. E então pude ouvi-la.

– Jonas? Jonas, meu filho, acalme-se. A mamãe está aqui. Calma. Foi só um pesadelo. – sua voz trêmula, e pesada. Eu sabia que ela estava tentando esconder o choro também, e que com certeza as lágrimas desciam de seus olhos tão ligeiras quanto um rio, mas queria que eu pensasse que ela é forte e que eu tenho que ser forte por isso. Daí, ao ouvi-la, fui-me acalmando aos poucos. E lá no fundo ouvia Ana falando brava com Carlos e com os amigos dele. E eu ainda chorava.

– Ele morreu, mãe. Por que ele se foi? Por quê? – ela apenas me abraçava.

Depois daquilo, não fui à escola por dois dias. Minha mãe não deixava e eu também me sentia bem para ir, sentia um certo constrangimento. Depois soube que Ana encontrou Maylon sozinho em frente a escola e o trouxe para minha casa muito preocupada com o que tinha acontecido comigo. Minha mãe já tinha ligado para a escola, para a polícia e sabe-se lá mais a quem ela ligou para saber meu paradeiro. Carlos e seus amigos foram levados para a delegacia e seriam presos por sequestro, mas eu não quis que minha mãe prestasse queixa. Mesmo assim eles tiveram que pagar aquele ato tendo que fazerem serviços sociais.

No terceiro dia após o ocorrido, eu ainda não me sentia bem para sair de casa, e por minha mãe eu nem pisava mais na escola, mas eu falei que voltaria passados quatro dias. Por enquanto ficaria por ali, fazendo algumas coisas que eu gostava de fazer, como ouvir músicas (Ed Sheeran e Adele eram os favoritos), conversar com Maylon e fazer carinho nele enquanto ouvia músicas. Mas mesmo com o som alto eu pude ouvir aquela inconfundível voz.

– Mas eu não tive nada a ver com aquilo! Eu o ajudei, e trouxe o Maylon para casa!

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