O Amor é Cego – Parte II

O Sequestro

– Eu sou Jonas, o cego zoado por todos. E que talvez nunca tenha saído do estômago daquela baleia, por isso ainda está tudo escuro.

Ana não entendeu a referência, mas deu um riso tímido e continuamos andando. Ela estudava o terceiro ano médio também, mas estudávamos em salas diferentes. E além disso eu estava bastante atrasado, devido aos inúmeros contratempos que tive por conta da minha deficiência. Um deles foi eu ter ficado um ano sem estudar porque a professora do quarto ano não sabia lhe dar com deficientes, e a gestão da escola não sabia o que fazer. Então minha mãe achou melhor me tirar de lá para evitar os constrangimentos para ambos. Depois viemos para essa cidade, na qual há escolas que parecem ser bastante adequadas para a recepção de alunos com deficiência. No entanto, eu falo de estrutura, gestão e corpo docente, pois os alunos não foram tão inclusivos assim. Talvez tenham sido no início, mas depois tudo mudou.

– Qual é o nome dele? – ela perguntou.

– Se com o dele você está se referindo ao meu cão-guia, é Maylon. – eu respondi, enquanto me cheirava tentando sentir se estava com mal cheiro, mas graças a Deus, não.

Ela apenas começou a falar com ele como se fosse um bebê, eu podia ouvi-lo se deliciando com os carinhos de Ana. Então entramos na escola. E ela me deixou na sala e se despediu com um beijo em meu rosto. Senti uma leve fisgada no estômago, e tentei fingir que não tinha ficado sem jeito com aquilo. Entrei e o professor já havia começado a aula.

Quando a aula terminou eu saí da escola com Maylon, e fiquei um tempo esperando, pois imaginei que Ana viesse me encontrar novamente. Ainda não sabia da aparência dela, mas pude sentir seu toque, mais ainda o toque dos lábios dela em meu rosto. Pude também ouvir sua voz, e lembrei de uma cantora que minha mãe costumava ouvir quando eu tinha quatorze anos, era um timbre bem parecido. Era rouco e tão calmo, que meus ouvidos se agradaram dele de uma forma que não parava de reproduzi-lo, como se ela estivesse presente durante a aula e os momentos seguintes. As palavras eram colocadas de forma impecável, as pausas entre uma e outra davam uma projeção sonora perfeita em suas construções frasais as quais saíam com tanta delicadeza de seus lábios. Também senti seu cheiro, e por um momento pensei ser o mesmo que o de minha mãe, mas quando cheguei mais perto para me despedir dela percebi que não, era um aroma impregnante e extremamente cheiroso. Enquanto ainda me perdia no cheiro dela, ouvi um carro parar ao meu lado. Maylon levantou e começou a latir de forma calma, pois ele era muito dócil, nunca mordeu ninguém nem deu intenção de que iria morder, mas naquele momento ele me avisava que havia perigo por perto.

– Ora! Ora! Se não é o cego Jonas. – falou, e eu logo reconheci o timbre.

– O que foi dessa vez, Carlos? – perguntei, puxando Maylon para mais próximo de mim.

Ele não respondeu, eu só o ouvi dizer para outro alguém, que deveria ser um dos amigos dele (talvez Ricardo), para ir por trás. Então me empurraram para dentro carro, até sentir minha cabeça batendo na parte de cima da porta, antes de me empurrarem com tudo.

– Vamos dar uma voltinha, Jonas. Eu te levo para sua casa. – disse Carlos, enquanto eu ouvia o barulho das portas fechando. Eu dizia para eles pararem com aquilo, perguntando onde estava Maylon. Não disseram nada. Ouvi o carro dar partida e sair tão rápido que pude sentir a primeira lei de Newton na pele. Eles gritavam como loucos, uma música super alta tocava, e eu começava a me atemorizar.

Na partida tão rápida do carro meu óculos caiu e não consegui encontrar, pois batia com os braços várias vezes no banco da frente, e algumas vezes até com o rosto. O rapaz que estava no banco de trás comigo, me segurou para que eu não tentasse fazer nenhum escândalo, mas como? Me batendo todo daquele jeito, o máximo que eu conseguiria era gritar para eles pararem. Eu tentei ficar sentado, e pude distinguir três vozes. Uma era a de Carlos, que eu já conhecia bem; outra de Ricardo que estava ao meu lado me segurando, e a terceira era de um outro amigo de Carlos, já tinha o ouvido junto com ele, mas não sabia seu nome.

Foi então que meus outros sentidos começaram a perder as forças, e parar de funcionarem. Todo aquele barulho ia ficando distante, e as batidas contra o banco iam ficando mais vagarosas e leves. Então pude ouvir os gritos de outra pessoa. Era ele, brincando comigo no jardim. Então eu perguntei:

– Pai? – eu ouvia o eco da minha voz. Cada som se repetindo até sumir. Então senti uma mistura de medo e alegria ao mesmo tempo.

photography of red bmw on asphalt road
Foto por Joshua Köller em Pexels.com
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s