O Amor é Cego – Parte I

O Pequeno Falcão

O frio nunca foi uma sensação que eu gostasse de sentir, apesar de ter passado a minha vida inteira condicionado a isto: ter apenas os quatro sentidos que me proporcionam ouvir e sentir.  E não é que eu prefira o calor, eu apenas acho que o frio nos deixa preguiçosos, além de que quando chove ficamos incapacitados de sair, por mais que não saia tanto, mas tem a escola para a qual eu tenho que ir, e não gosto nada de chegar lá molhado. No entanto, o meu melhor amigo Maylon não parece se importar com isso, corre por toda parte quando o inverno chega. Ele adora o frio, tanto quanto eu adoro o tempo aberto.

– Ei, cegueta!

Eu estava a caminho da escola, e o dia era frio. Minha mãe quase nunca me deixava vir só, mas eu sempre a lembrava que Maylon estaria comigo para onde quer que eu fosse, e que nada demais aconteceria comigo, mas ainda assim ela continuava a reclamar de minhas vindas “sozinho” para a escola. Eu, por outro lado, sempre dizia que sabia me virar, além do mais eu ia com o meu amigo, então não tinha com o que se preocupar. Mas era difícil mudar a opinião dela, e eu até que entendia porque.

– Ei, eu tô falando contigo! – senti um empurrão em meu peito que quase me jogou no chão, mas consegui me equilibrar a tempo. Mas acabei soltando a coleira do Maylon, o que me deixou numa situação nada boa.

Minha mãe me deu Maylon de presente quando eu tinha quinze anos, um ano depois de eu perder meu pai num terrível acidente de carro. Coloquei esse nome nele porque se assemelha a Marlon que quer dizer “pequeno falcão”, o qual era o nome do meu pai. Ele me chamava assim sempre que chegava do trabalho: meu pequeno falcão feroz. E dizia que o nome era dele, mas o significado era meu, pois eu era capaz de voar alto e enxergar o inimaginável lá de cima. Eu não queria colocar o mesmo nome, mas achava que o cão supriria muito a falta deixada por ele. Hoje tenho vinte anos, quase seis anos após o acidente e cinco com o Maylon. Nos tornamos inseparáveis, principalmente depois que ele se tornou o meu guia e eu pude ir a escola andando – às vezes.

– É você, Carlos? Eu já disse para me deixar em paz. Só quero chegar na escola.

– Quantas vezes vou ter que te dizer que você não é bem vindo nessa escola, hein? – ele disse isso, e empurrou-me sobre uma lata cheia de lixo.

Era exatamente por essas situações que que minha mãe não queria que eu fosse sozinho. Na verdade, se dependesse dela eu nem estudaria. Ela era aquele protótipo de mãe protetora que quer proteger o filho de tudo. Sempre que eu saía de casa ela fazia uma avaliação completa em mim para ver se eu tinha me arrumado direito, se o óculos escuro – o qual eu sempre usava em qualquer ocasião – estava colocado corretamente, essas coisas. Mas tudo isso era porque ela não queria me ver sofrer pelo fato de ser diferente, mas era isso o que sempre acontecia. Eu era o zoado por Carlos e seus amigos, e eles achavam isso o máximo. Diferente da minha mãe, eu não me importava com isso. Já tinha sofrido muito no passado, principalmente quando não tinha mais a voz do meu pai me chamando de falcão feroz. Mas com o tempo eu deixei. Queria mesmo era continuar estudando, independente das dificuldades, até conseguir chegar ao nível mais alto de titulação acadêmica.

– Você está bem? – me perguntaram de repente. Era uma voz feminina e parecia estar preocupada com o que tinha acabado de acontecer comigo. Ela não sabia da minha deficiência, e depois de alguns momentos perguntou se eu não iria segurar sua mão. Eu apenas respondi que não precisava, tentando me levantar. Ela segurou meus braços e perguntou por que aqueles garotos tinham feito aquilo.

– Sou cego. – respondi.

Por alguns momentos não ouvi nada, e eu já estava acostumado com isso. Sempre que eu dizia ser cego, a pessoa ficava espantada, sem falar muito. Acredito ser por pena ou algo do tipo, mas eu não gosto que sintam isso por mim, é uma sensação horrível sentir que alguém está com pena de mim. E depois de alguns minutos, após eu já ter me levantado ela pediu desculpas.

– Me chamo Ana, e você?

animal avian beak bird
Foto por Pixabay em Pexels.com

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