Amores Líquidos

Nunca houve uma forma certa de amar, disto todos temos total ciência. Dizem se tratar de concepção individual, ou seja, cada um escolhe para si a forma de amar que mais o é adequada. Porém, cada momento da história tinha uma maneira de manifestar este sentimento. Pois antes o amor mostrava-se mais por dentro que por fora, se é que entendem. Os olhos, a mente, a pele, o coração, tudo trabalhava junto. Era uma espécie de indústria sistemática do amor. Quando se amava, todos os membros dessa empresa humana funcionavam quase que unicamente (se não fossem as necessidades) para sentir o amor.

E de que forma este sentimento supracitado era manifestado? Lógico que o ponto de pulsação continua o mesmo. Pouco, mas continua. Mas era tudo um paradoxo só, em que se sofria por amor e isso era a coisa mais normal do mundo. Era um viver morrendo todos os dias, e isso os grandes escritos trazem de forma bem explícita. Algumas buscas eram totalmente ideológica, sofria-se por um amor interno, não existia, era só na mente. Mas se podia ver a essência do amor verdadeiro, pois este quando se manifesta traz consigo todos os desejos aflorados. Sofrer era amar, e amar se resumia em sofrer.

Isto mudou com um tempo. O amor se tornou algo mais real, o qual figuras reais sentiam por figuras já palpáveis, não idealizadas. No entanto, o sofrer ainda estava entranhado neste sentir. Pois, para que se pudesse gozar desta abstração sentimental, necessário seria ultrapassar limites, vencer obstáculos, passar por algumas peripécias cotidianas. Mas era isso o que tonava o amor mais quente, mais forte e mais consumidor. Passar por essas aventuras por amar era a moda, e não existiam limites para os riscos, quanto mais intenso o combate, mais gostosa era a degustação da vitória.

No entanto, a era atual, ou melhor, este século tem demonstrado uma maneira de demonstrar amor bem estranha. Se antes este era um viver morrendo, hoje se restringe à juntar separando. O amor dura tão pouco que cabe em dois minutos, e ainda sobra tempo. O tempo que antes era voltado para amar um único indivíduo, hoje é tempo que já se “pegou” vários.

Não tem sindo nada estável, tudo vai caminhando e ganhando a forma que melhor convém para aquele momento. O amor hoje é líquido, que vive escorrendo pelos dedos. Ora ou outra se ama alguém, e quando se vê já deixou de amar. Amores não duram mais tempos suficientes para serem chamados de amores, eles simplesmente acabam em pouquíssimo tempo. O real tornou-se tão palpável que passou dos limites. O amor está se tornando um paradigma, que se segue de geração em geração. Parece até uma doença hereditária, que a sociedade chama de namoro. O arcaico foi suplantado em troca de um novo amor  que tornou-se líquido, plástico, banal. E embora ainda existam amores como antes, sempre acaba respingando gostas da manifestação do amor atual. E isso é preocupante.

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Foto por GEORGE DESIPRIS em Pexels.com
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