Saudades de Helena – Parte IV

O Baile de Máscaras

Era noite, eu não enxergava quase nada por onde passava, mas mesmo assim saí da festa a todo vapor correndo atrás de Helena. Estava magoada, e eu podia entender, mas tinha que explicar a ela que isso era só mais uma investida de Carolina. Mas quando cheguei à beira da estrada ela já tinha pegado a bicicleta de Eduardo, e disparado para longe, porém ainda dava para vê-la, seu vestido a atrapalhava, fazendo com que ela pedalasse com menos força.

Vinte e quatro de novembro, as oito da noite estava marcado um baile. A professora quis fazê-lo para arrecadar dinheiro para uma viagem que faríamos a cidade grande, a fim de participarmos de um sarau. Nem todos tinham dinheiro para isso, então ela promoveu um baile de máscaras com um bingo que ocorreria no final da festa.

– Você está linda! – eu disse à Helena quando a busquei em sua casa.

Hoje faz exatamente um ano que a conheci, e exatamente dez meses que começamos a namorar. O baile, para nós, era a nossa comemoração por esta data tão importante. Eu a levei de bicicleta, e sim, eu já tinha uma bicicleta nova. Quando chegamos lá, nos encontramos com Carlos, Lucas e Edu. Eles nos conduziram para dentro do salão, que estava divinamente ornamentado. Havia luzes e flores de todas as cores percorrendo todo o ambiente. O tema era algo relacionado à botânica, e a maioria da ornamentação fora patrocinada pela floricultura na qual Helena estava quando a vi pela primeira vez. Neste dia, ela não estava comprando flores, mas estava, na verdade,  trabalhando, pois aquele local pertencia ao pai dela. Eu só descobri isso algumas semanas depois de a conhecer melhor.

– Que vestido lindo, Helena! Foi o Henrique que deu a você? – era Carolina que estava tentando tirar a nossa paz, mas tínhamos decidido que ela não estragaria a nossa noite, então nós apenas saímos de perto dela, e dos outros.

No entanto, o tudo catafórico começou quando nós estávamos dançando, e Edu falou algo em meu ouvido que jamais esquecerei. “Preciso de você, meu amigo”, foi o que ele disse, e então eu a deixei ali, sem nem imaginar o terrível futuro que nos aguardava. Edu me levou para a parte de trás daquele local, e estava um pouco escuro. E o indaguei várias vezes do que se tratava, mas ele apenas mandava eu continuar. Eu achava estranho porque ele parecia triste e feliz ao mesmo tempo, e foi por isso que pensei ser um assunto urgente e muito sério. Mas, para a minha infelicidade, dei de cara com Carol, que chorava muito. Primeiro achei que era mais uma piada, mas ela chora de verdade, como se uma desgraça tivesse acontecido. E eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Neste mesmo momento uma moça foi até Helena e disse que ela precisava ver algo de seu interesse, e que era muito sério.

Carol disse para mim que seu pai havia decidido levá-la para bem longe, um convento que ficava em outro estado distante daqui. Mas ela não queria, pois aqui tinha suas amigas e seu grande amor. Disse que o real motivo para implicar com Helena não era por ela ser a melhor, mas por eu tê-la escolhido para namorar. A dor que ela sentia era horrível, não poderia partir e ficar longe de mim, não aguentaria isso. Eu a abracei e disse:

– Sinto muito, mas… eu amo Helena!

Ela olhou para mim e de repente me beijou, agarrando-me pelo pescoço, nem tive como empurrá-la, pois meus braços estavam em volta dela nesse momento. É claro que tudo o que ela disse era mentira, menos a parte que gostava de mim, isso eu já havia desconfiado. Então eu a vi, olhando com uma enorme tristeza nos olhos, talvez pedindo a todos os santos que aquilo não fosse verdade. Tudo aconteceu em questão de segundos, talvez milésimos. Empurrando Carol para o lado, andei em direção a Helena, mas ela saiu correndo dali, e quando eu me preparava para ir atrás dela, senti uma mão segurar meu braço. Puxei forte até conseguir me soltar dela (Carol). Quando cheguei no salão, vi Carlos vindo em minha direção.

– Cadê ela, Carlos? Cadê ela?

– Foi o Edu. Eu o vi conversando com a Sara antes dela ir chamar a Helena – disse Carlos.

– Edu? Como assim, Carlos? Ele é nosso amigo, como foi capaz de fazer isso? – eu disse chorando.

Na verdade, Edu não sabia que isso iria acontecer. Carol já chorava quando ele a encontrou, e explicou a ele que estava arrependida do que fazia e queria pedir desculpas, mas primeiro tinha que ser comigo. E assim aconteceu.

Saí correndo atrás de Helena. Peguei minha bicicleta e pedalei o mais rápido que pude, o caminho era escuro e eu pedia a Deus que não acontecesse nada com ela. E então, quando eu já estava quase me aproximando dela, chegamos na curva, a qual ficava em frente a floricultura do pai dela. Vinha um caminhão. Rápido. Vi um clarão. Não conseguimos parar. Ela foi lançada para mais longe que eu, caiu na frente da floricultura. Já eu fui pego pelas costas e fui jogado ali mesmo, pois o carro já freava. Apaguei.

Acordei dois dias depois no hospital. Mamãe chorava muito, e meu pai tentava controlá-la. Então recebi a terrível notícia. No acidente, eu rompi uma vértebra e ela fora pressionada fazendo com que eu perdesse os movimentos e sensações da parte de baixo da lesão medular. Minha mãe não aceitava o fato de que eu seria paraplégico para sempre, isso mudaria toda a nossa vida. No entanto, essa não era a única notícia ruim. Na verdade, só esta era ruim, a outra era trágica. Eu chorei descontroladamente, como uma criança. Era uma dor terrível a que eu estava sentindo. Perder os movimentos da minhas pernas para sempre era pouco perto do que era perder Helena para sempre. Eu não suportaria, e não suportei. Passei seis meses em uma profunda depressão. A noite eu tinha crises de choro e gritos pelas dores que sentia no corpo; durante o dia eu tinha crises por causa da dor que sentia no peito. Eu havia morrido junto com ela, sem nem ter sido enterrado.

– Henrique? Tudo bem? – Janice perguntou ao ver uma lágrima descer dos meus olhos enquanto eu olhava para o nada, segurando com muita força a faca nas mãos.

– Ah… Sim, querida! – eu respondi, enxugando a lágrima. Mas era mentira, e ela sabia disso. Eu novamente lembrava com muita dor de todos esses momentos do passado.

Conheci Janice seis meses após o acidente. Era filha de uma amiga de minha mãe, e elas estavam de mudanças para a nossa cidade. Depois de uma semana frequentando a minha casa ela decidiu que tentaria me ajudar a recuperar quase tudo o que eu perdi. Ela me lembrava um pouco Helena, e várias vezes eu tive alucinações achando que era a minha amada que conversava comigo. Mesmo com toda a dificuldade, Janice não desistiu de mim, me tirou da depressão e conseguiu me tirar de casa para passear quase todos os dias. Ela era alegre, e eu gostava de suas histórias. Depois de um tempo eu me senti tão bem com ela, que decidi voltar a viver. Nas férias de dezembro, depois de mais de um ano do acidente, ela disse que queria que eu voltasse estudar junto com ela. Era nosso último ano. Eu conclui o segundo ano médio no hospital, depois do acidente. Tinha notas suficientes para isso, a escola deu o resultado antecipado.

Eu aceitei. Janice se tornou a minha cuidadora, tanto em casa quanto na escola. Ela me levava e trazia, além de me ajudar a entender gramática, e me fazer adorar estudá-la. Nós só começamos a namorar depois de um bom tempo que terminamos o colegial, ela já tinha decidido que ficaria comigo para sempre, eu é que era mais fechado por causa de tudo o que havia acontecido. Mas acabei aceitando namorá-la, e nos casamos dois meses depois. Foi uma festa muito linda. E após alguns meses nasceu nossa filha, na qual Janice decidiu por o nome de Helena para homenagear o amor que perdi. No início achei uma ideia muito ruim, porque eu lembraria, mas Janice disse que isso era uma história que eu precisa superar. E assim fizemos.

Hoje, depois de treze anos, somos felizes por termos um ao outro e por termos nossa querida Helena conosco. Me tornei professor da escolinha na qual estudei todo o meu ensino básico, e mesmo enfrentando alguns problemas no início, consegui levar uma vida normal. Mas sempre lembro de Helena, principalmente quando entro na sala de aula e digo:

– Boa tarde, alunos. Hoje nossa aula será sobre gramática!

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Foto por hitesh choudhary em Pexels.com

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