Helena: uma história de amor – Parte III

Como Eu Era Antes de Você

Minha linda esposa tinha chegado do trabalho, e eu saí rapidamente da varanda antes que ela me visse lá. Nesse momento o Sol já havia sumido, e como eu estava tão imergido nas lembranças, não a vi chegando. Antes nós vínhamos juntos, ela tinha que sair mais cedo todos os dias e passar na escola para me buscar. Mas eu não quis mais, pois ela poderia ser prejudicada com isso, então comecei a pedir a um servidor da escola que viesse me deixar em casa todos os dias. Ele aceitou, afinal, o trabalho dele era só dirigir aquela vã que não servia para quase nada na escola. Depois o prefeito oficializou seu trabalho em vir me deixar em casa.

— Venha, Helena! O jantar está pronto. – disse Janice.

Naquela noite eu estava bem mais nostálgico que qualquer outra, pois era vinte e quatro de novembro. Foi o dia em que eu a perdi para sempre, e essa data é muito dolorosa para mim, Janice sabe disso. Enquanto ela põe o jantar para a nossa filha, me olha meio desconfiada. Como se quisesse me fazer alguma pergunta, e esperasse que a resposta fosse totalmente positiva, ou chegasse perto disso. Mas na maioria das vezes eu respondia com um silêncio precedido por lágrimas, e logo depois sussurros, e então… o abraço acolhedor de minha esposa.

Eu sempre a agradeci muito por fazer parte da minha vida, pois ela foi meu resgate. Foi ela quem me tirou de um fundo tão escuro e sofrido que ninguém chegava perto. Janice fez por mim o que ninguém mais queria, o que os outros já tinham desistido de tentar fazer. Afinal de contas, não era fácil lhe dar com um cadeirante mau humorado, que só sabia amaldiçoar sua existência. No entanto, ela foi a minha Clark da vida real, mas não foi tão fácil quanto descreveu Moyes. Eu estava inexorável, e não gostava de quase ninguém. Lucas era o único que ainda me visitava e tentava conversar comigo, mas eu sempre o fazia ir embora por não falar absolutamente nada.

— Tem algo para falar sobre o trabalho? – perguntou Janice.

Eu respondi que não, e que foi só mais um dia como qualquer outro de trabalho. Com isso, ela ganhou minha mente para conversarmos durante aquele jantar, e dessa vez era sobre coisas agradáveis. Chegamos até a rir por um longo período, lembrando das aventuras que já tínhamos passado, e relembrando o nascimento de nossa querida Helena depois de mais de um ano de namoro.

No entanto, sei o quanto estão curiosos para saber o que realmente aconteceu para chegarmos a este momento. Então voltaremos à parte em que Helena, aquela pela qual eu me apaixonei perdidamente, e eu começamos a namorar.

Por mais incrível que possa parecer, era vinte e quatro de janeiro quando a pedi em namoro e ela aceitou sem titubear. E é exatamente por isso que essa data, ou melhor, este dia me causa tanta dor. É uma dor duas vezes mais forte que em qualquer outra pessoa, pois eu lembro de duas coisas ao mesmo tempo: o episódio mais significativo da minha vida naquele momento e o mais triste também. Mas não foi fácil de início, como já afirmei, eu não era tão mulherengo quanto os meus amigos, mas Lucas me deu uma força com isso, e tudo ocorreu bem.

Queria só esclarecer algo, para que meus amigos e eu não pareçamos tão infantis quanto descrevi. Como a cidade em que moramos é muito pequena, não tínhamos nada para fazer, a não ser jogar bola no campinho que ficava próximo à casa de Lucas, e como era longe nós íamos de bicicleta. Essa era a nossa brincadeira. Tinha também a rodeira que nós costumávamos brincar muito, mas paramos desde o dia que Edu sofreu um pequeno acidente. Enquanto corríamos atrás das rodeiras descontroladamente um querendo chegar primeiro que o outro, não notamos um pedaço de pachiba no chão com vários gravetos dela espalhados. Eu, Lucas e Carlos passamos direto por cima, mas Edu não. Um dos gravetos acabou entrando no pé dele, de um lado do tornozelo para o outro. Desde então nós paramos com as rodeiras.

Helena era muito dócil, sempre me deixava feliz e meus pais a amavam muito, às vezes parecia que eles gostavam até mais dela do que de mim. Eu não me importava com isso. Nós vivíamos feliz, e como eu nunca tinha passado por isso, era uma experiência extremamente linda. Porém, como todo e qualquer relacionamento tem conflitos, começou a surgir um problema dentro do nosso.

Era Carolina, ela não suportava a ideia de que Helena era a aluna perfeita da sala. Só tirava boas notas, e mesmo que se vestisse de forma nada chamativa, era considerada a mais linda naquele ano. Carol queria acabar com isso, e sempre tentava humilhá-la nas aulas por ela ser pobre, e ter poucas roupas. Mas nós sempre a defendíamos, e quem saia humilhada era ela. Mas como ela via que aquilo não estava funcionando, resolveu tocar em algo mais profundo: o relacionamento de Helena comigo. Passou a inventar mentiras. Dizer que se encontrava comigo às escondidas, e que eu a amava mais que qualquer outra. Que eu sempre ia à igrejinha para vê-la, pois ficava muito perto de casa. É claro que Helena não acreditou de início, mas naquela noite de vinte e quatro tudo mudou.

— Edu? Como assim, Carlos? Ele é nosso amigo, como foi capaz de fazer isso? – eu disse chorando.

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