Helena: uma história de amor – Parte I

A Garota das Flores

Janice nunca me deixou falar das aventuras que vivi quando era mais novo, ela sempre diz que quem vive de passado é museu e que nós temos que falar é do futuro. Mas eu sei bem que, na verdade, ela não quer ouvir as histórias que guardo desde os meus dezessete anos, de um amor que não deu certo e me fugiu pelas mãos enquanto o agarrava com todas as forças. Porém eu sempre que chegava do trabalho, lá pelas cinco e meia da tarde, corria para a varanda com uma xícara de café em mãos a fim de ficar lembrando e perdido nos pensamentos, antes que Janice chegasse, pois ela veria meu olhar atracado ao horizonte e saberia, com certeza, eu pensava nela. Mas meus fantasmas eram teimosos e não queriam ir embora tão facilmente, afinal, nós não nos deixamos, fomos separados um do outro; e talvez eu não quisesse que eles se fossem.

Era novembro, quase fim de ano. Aquele clima de tempo molhado em que se dá vida às nostalgias de tempos mais tarde. Eu gostava de brincar na rua com uns amigos que tinha há um bom tempo. Amizades de infância que, nós sabemos, com o tempo se vão.  Eles também eram os amigos de escola, visto que por ali não havia muita gente, então não tinha porquê a escola ter mais de duas salas, o que sempre fazia com que estudássemos juntos, e apesar disso, era muito bonita, além de ter dois ótimos professores. Certo dia, a professora disse que na aula seguinte uma nova aluna seria apresentada à turma, e queria que nós a recebêssemos muito bem. Ficamos empolgados com a notícia, e como sabíamos que ela vinha de um lugar bem mais simples que a nossa pequena cidade, esperávamos por uma moça esgadelhada, com as pernas cheias de marcas de feridas, e o rosto sujo de um catarro que de tão velho não saía nem com bucha de espigo de milho – eu odiava essa.

Mais tarde, enquanto brincava com os amigos, tive um deslumbre total. Vi meio escuro, quase que caí da bicicleta, mas parei e me sustententei sobre os pés. A beleza da rosa em suas mãos parecia diminuir-se ou talvez nem chegasse a existir perto dela. No mesmo momento eu ouvia no fundo os gritos dos meus amigos chamando por algo que parecia ser o meu nome, mas era abafado por um som descontrolado. Eu pensei: é esse o som das batidas do coração? Foi quando percebi que ela me olhava com extremo pavor. Sua feição mudara, mas ainda assim eu a achava linda demais, mesmo que a casa de flores – um jardim magnífico – tentasse usurpar a incontrolável atenção que dava à ela. E o som foi ficando mais intenso, mais forte, mais perto e em intervalos menores entre as apitadas. Apitadas? – pensei. Coração não apita. Foi quando voltei a atenção para os rapazes que se esgoelavam me chamando e quase arrancavam seus braços apontando algo. E foi neste momento que eu percebi que vinha um medonho carro em minha direção. Só deu tempo de correr. A bicicleta fora destruída, mas eu estava bem. Fui para casa, e durante aquela tarde eu pensei várias e várias vezes na garota das flores. Lembro de todos os detalhes como ela estava. Carregava um cesto no braço esquerdo com algumas flores dentro, e com a direita apanhava outras, enfiando-as dentro do cesto. Os cabelos eram como ouro. Ou caramelo? A cor era mais difícil de descrever, porém estavam separadas duas mechas que se juntavam pelas pontas sobre o resto do cabelo ondulado e volumoso. E, além disso, ela estava com um lindo vestido rodado, que trazia leves e delicados tons de rosa e amarelo se sobrepondo um ao outro.

No outro dia eu nem lembrava mais de que uma aluna nova seria inserida em nossa sala. Na verdade, eu queria mesmo era voltar para brincar na rua da casa do Lucas, onde vi aquela tão bela moça. Mas não era só por isso que não estava atento à aula, minha atenção também estava encoberta pela raiva que eu sentia, pois por causa da bicicleta ter sido amassada e eu quase ter sido atropelado por um caminhão de cargas enquanto ficava parado igual um babaca no meio da estrada, acabei perdendo meu celular, meus pais o tomaram como castigo. Até parece que ainda tenho idade para essas coisas – pensei, balançando a cabeça negativamente. Eu tinha que saber se a bela moça das flores também tinha celular, para que pudesse tentar falar com ela, mesmo sem um pingo de coragem para isso, mas desse jeito seria difícil. No entanto, eu tentaria algo, talvez começasse a gostar de botânica só para entender seus gostos e tentar puxar um assunto. A aula começava e eu só lembrava de todos os momentos. Mas, de repente, meus pensamentos foram interrompidos quando a professora parou de falar das chatices gramaticais, e disse:

— Seja bem vinda, Helena! Pode entrar.

Eu levantei a cabeça, olhei para os meus amigos e eles davam a impressão de que estavam prestes a soltar um berro descontrolado, estavam preparados para as gargalhadas. Mas tudo o que se ouviu foi o som emitido pelo contato entre os sapatos da moça e o chão de madeira. Os que antes tinham feito toda uma preparação para dispararem risos por toda sala estavam estupefatos diante da moça. Eu não estava diferente. Minhas pálpebras não se juntaram por longos vinte segundos, e eu me perdi bem ali diante dela.

Então, eu falei quase que sem forças:

— É… ela! É o mesmo… vestido. É ela!

— Desculpe, eu me atrasei, professora! – ela disse.

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