Mãos de Preto

Mãos. Estas mãos supracitadas. Sem elas não haveria exportações nos primórdios desta nação, o bem-bom dos  barões que achavam ser os deuses de sangue puro ou que eram os donos do muito e de muitos. Não haveria o carnaval que é a maior festa nacional, o samba que a rege, e muito menos o batuque. Não haveria a capoeira tão utilizada em comunidades mais carentes – tão lindo de se ver; a farofa que dá um sabor especial à culinária; nem o tão gostoso cafuné, uma das melhores formas de demonstrar carinho; o moleque que é tão chamado quando se perde a paciência; ou o caçula.

Muitas palavras não haveria. Não haveria cochilar, a quitanda que já nem se sabe por onde ficou; o zumbi, o quilombo, a caçamba, o capanga, a tão privilegiada cachaça. Não haveria o cachimbo, o camundongo, a canjica, o dengo, a miçanga, a quenga. Sim, a quenga, e seus mais diversos significados. Não haveria bagunça. Não haveria nada disso sem as tão cansadas mãos de preto, sem essas mãos que trabalharam noite e dia para construir uma nação que nem era sua. Mãos que foram arrasadas, tiradas à força de suas moradas, onde, tristonhos, os entes ficavam (quando não levados também) desamparados e arrasados.

Chorava quem ficava, e mais ainda quem partia. Um choro amargo de dor e agonia, que era concebido tanto pelas lambadas doídas quanto pelas saudades ensanguentadas. E, falando em sangue, é horrível tentar imaginar quanto sangue fora derramado durante aquele terrível período. Esta é uma nação regada com sangue e ascendida com dor e sofrimento. Foram feitos de nada, tratados como animais, aliás, nem animais são tratados assim – nem devem. Foram postos, ou melhor (pior?), jogados à situação de escravizados, unicamente por conta de sua cor, mas morreram sendo a nossa história nunca totalmente reconhecida. Foram trazidos e juntados com outros na mesma situação, os que antes eram donos da terra, e foram sujeitos à trabalhadores dela. No entanto, eles não vieram só, trouxeram sua língua, sua culinária, suas religiões, a sua cultura inteira para o difícil ócio de sobrevivência. Após séculos, por onde se anda, vê um pedaço do que essas mãos nos deixaram: construções tanto físicas quanto lexicais – entre outras.

Os encaixes foram feitos, e estão encaixados até os dias de hoje, porém mesmo que alguns dos negros andem livres de correntes, ainda estão presos a padrões nunca superados, presos por uma mentalidade medíocre. Mas a luta continua. O preconceito deve ser banido (deveria ter ido junto com as correntes), mandado embora de vez  da sociedade, desde os menores setores à setores mais amplos. Assim, muitos reconhecerão que todos os afixos inseridos à língua, cultura e história são contribuições, e se hoje há carnaval, há samba, há canjica e há bagunça, é porque houve a inserção, mesmo que forçada de outras pessoas aqui, formando-nos, e que sem essas mãos de preto não haveria.

Não haveria Brasil!

VIVA A AFRICANIDADE BRASILEIRA!

Que este dia, que é o Dia da Consciência Negra, nos traga, acima de tudo, respeito às diferenças, pois elas foram e continuam sendo cruciais para a história desse país.

red woman creative summer
Foto por Pixabay em Pexels.com
Categorias ReflexõesTags , , , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close