Você Me Disse Adeus

O nosso “nós” era insólito, como um vulcão que entra em erupção em profundo mar; era recíproco, embora você dissesse que não. Chegava perto de ser um romance de Sparks. Um modelo romântico que ultrapassa de gerações em gerações e que nunca perde o protótipo. Como o amor descrito por Camões, aquele que além de ideal quer estar ali, vivendo o real e o concreto nas mais diversas formas de se expressar. Tudo isso nós éramos.

Fevereiro nem sempre traz coisas boas, talvez o carnaval cheio de cores e festas até possa satisfazer a muitos, mas não é o mesmo para mim. Ou talvez, quem sabe, já tenha trazido sim. Sei lá! Eu não costumo lembrar detalhes do que me acontece no ano inteiro, nem ao menos detalhes dos melhores momentos são postos para fora do subconsciente. Minha mente é dissipadora e não se preocupa muito em exercer a função “volta no tempo”, principalmente quando mais preciso. Mas lembrarei desse fevereiro, mesmo que os detalhes me fujam para longe quando são importantes para estabelecer uma coerência cronológica dos fatos. Eu já me acostumei a ter lembranças fragmentadas, como um flash. Porém, sempre que lembro de fevereiro é a nós que sou reportado, e com alguma dificuldade, por conta da ‘treta” da minha mente com os detalhes, eu lembro de como tudo começou.

Nossa relação não era perfeita, claro, mas era sempre um abrigo estar ao seu lado. Lembro das rodas girando rápido pela estrada e a gente rindo; as águas sendo perfuradas por nós, e os olhares incontroláveis que de vez em quando dávamos. Não houve desconfortos, você chegou e foi logo me levando. E me levou para bem longe, mais perto de ti. Depois de quase meio tempo nós decidimos abrir o jogo e deixar os impulsos falarem mais alto que nossas inúmeras conversas sob as estrelas que quase todas as noites apontávamos no céu. Este mesmo céu que mais adiante seria o motivo de sua nostalgia, fazendo você lembrar de mim (você disse). Eu lembro que sempre lhe explicava os conceitos das palavras que você não conhecia, e que sempre acabava as usando depois comigo. Eu não deveria ter-te explicado o da palavra “ultimação”. Nós nos apegamos e não mais quisemos nos soltar. Nossas noites mais lindas foram as mais prazerosas, a Lua sabe disso, pois algumas vezes ela veio nos bisbilhotar. Mas a gente sempre sabia, ela sempre chegava perto demais e acaba se mostrando para nós. Era agradável. Nós sentávamos, ficávamos de pé, deitávamos, entreolhávamos, e sempre a melhor companhia que tínhamos eram nós mesmos e os inanimados.

Houve noites que fiquei, outras que me fui para no outro dia voltar e não ir mais. Lembro de quando te beijava e não conseguia sentir o mundo ao redor, pois seus lábios me teletransportavam para dentro de ti, e ali eu ficava abraçado com seu cheiro que nunca saiu de minhas narinas. Eu lembro de que nós éramos tão meigos juntos, tão inocentes que chegávamos a tremer compulsivamente. Era medo, prazer ou os átomos vibrando com a presença de tão admirável pessoa. Fosse o que fosse, era mais uma prova do quanto aquilo estava sendo lindo. Do quanto estávamos envolvidos nessa história. E, sabe?! Nossa cumplicidade era o melhor de tudo.

Então, foi-se tudo. Perdi o zelo pela vida e ela por mim, e nunca mais quis sair de um quarto de mim. Enfie-me no peito, e lá estive passando todos esses dias. Queria eu saber por que esse paradigma tem que ser seguido. Se há fins, por que os começos começam? Eu nem quis ver a minha imagem que você deixou, por causa do estrago que eu estava. Era uma dor que não passava, era contínua. Eu chorava tentando amenizá-la, e foi nesse momento que lembrei de quando, na infância, me machucava, que eu sempre chorava, e dentro de minutos a dor ia passando. Mas esta é uma dor diferente, não doía para fora, mas para dentro, e eu nem sei como que isso acontece. Vi meu coração sufocar, e eu fiquei ali imóvel, sem poder fazer nada para ajudá-lo. É como se eu estivesse a ver desta tri dimensão meu eu se matar em uma quarta, na qual eu não pudesse entrar para salvar a mim mesmo. Eu lembrava das noites, da Lua, dos teus beijos saudosos e os de despedidas que sempre me acalmavam para voltar again.

Não foi você que me deixou, eu sei. Foi o destino que nos proibiu, quis ser para nós um ditador inexorável – amargo. E de tão amargo conseguiu nos atingir, fazendo com que você tomasse a triste decisão de deixar o “nós”. Eu (chorando) disse não, eu não queria de forma alguma. Não conseguia acreditar que ali, naquele momento existisse uma fenda temporal que fosse te levar para longe de mim, mas foi unânime: dois contra um. E eu só pude sentir seu abraço apertado, que me fez lembrar os momentos que tivemos sem os detalhes precisos. Então, eu chorei, e desde então estou jorrando. Não encontrei motivo algum para ser firme. Firme para quê? Você era a minha fortaleza. Você era tudo. E eu perdi. Me disse adeus e seguiu o conselho do destino, aquele chato sem noção que chega e rouba a nossa história. Mas ainda te espero, mesmo que seja no infrutífero fevereiro, mas quero te encontrar. Pode ser março, abril, tanto faz. Eu só queria viver novamente o romance de Sparks, mas, para o meu pavor, não deu.

affection board broken broken hearted
Foto por Pixabay em Pexels.com
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2 comentários em “Você Me Disse Adeus

  1. O texto mostra o início, o meio e o fim de um relacionamento: A paixão intensa de um começo; as incertezas dos momentos vividos; as sensações e os pensamentos dos momentos vividos; os processos de associação da pessoa com as coisas, sensações, cheiros, lugares. A inocência nos detalhes, na simplicidade, num simples olhar, a fome um do outro sentida em todo tempo, a saudade da paixão, a inconformidade com um fim inesperado. Se enxergar em chão, perdido, sem motivos de continuar um bom caminho. Um desgosto pelas coisas, uma tristeza, um alguém que não voltou, e uma esperança de um final feliz.
    Parece mágico como um final não tão acabado pode trazer esperança ao coração, e como a paixão encanta e desencanta o homem, ela é a vida e também é a morte.
    Texto muito bom.

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    1. Muito obrigado meu caro. Fizeste uma ótima análise, estás de parabéns!

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